Em maio de 2018, a produção mineira “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” levou o Prêmio Especial do Júri da mostra “Un Certain Regard”, no Festival de Cannes, na França. Ao passarem pelo tapete vermelho, os diretores João Salaviza e Renée Nader Messora e os produtores Ricardo Alves Jr. e Thiago Corrêa exibiram cartazes pedindo a “demarcação já!” de terras indígenas.

Quase um ano depois, o longa chega nesta quinta (18) às salas de cinema numa situação ainda pior em relação à questão dos índios. “A gente nunca imaginou que a estreia aconteceria num contexto ainda mais duro e difícil”, registra Salaviza, diretor português casado com a brasileira Renée Nader. Pelo menos fora do país a manifestação encontrou eco, apontada pelo “The New York Times” como um dos principais momentos do festival.

“O filme tem a sua forma de existência dentro da sala, podendo nos deixar encantados e embriagados sobre esta outra cultura, mas ao sair do cinema vemos um Brasil que quer acabar com outras formas de vida. Para o bem ou para mal, o filme dialoga muito profundamente com o momento atual”, salienta o realizador, que estabeleceu uma abordagem incomum às produções sobre indígenas.

Ao permanecer por vários meses em contato com a tribo Krahô, em Tocantins, o casal passou longe de fazer um filme etnográfico. “Estabelecemos uma intimidade com as pessoas da aldeia, em particular àquelas que filmamos, e ajudamos a desconstruir algumas certezas que temos antes de conhecê-las. Normalmente, (os brancos) falam sem conhecer a vivência dos índios. É muito interessante mostrar os krahôs pelo ponto de vista deles”, registra.

Ao enfocar um jovem vivendo um processo de luto após a perda do pai, “Cantoria” enaltece a individualidade e os sentimentos que são comuns a qualquer ser humano. “Queríamos muito que o público sentisse uma empatia, como nós sentimos, buscando transportar essas relações para as imagens, sem mostrá-los como inacessíveis e estereotipados”.

Colega de faculdade de Alves Jr, num curso de cinema em Buenos Aires, Salaviza enxerga no núcleo mineiro do filme “um grande aliado”, e cria pontes entre Belo Horizonte e a terra natal Lisboa. “A dimensão delas não é grande nem pequena, sendo possível fazer redes familiares de contato, com núcleos de amigos que se mantém”.