Não é “Cidadão Kane”. Muito menos “Um Corpo que Cai”, só para citar dois títulos sempre aclamados em votações. Para o crítico de cinema Donny Correia, o melhor filme de todos os tempos é “O Gabinete do Dr. Caligari”. O longa-metragem alemão, dirigido por Robert Weine, completa, nesta quarta-feira, 100 anos de lançamento. 

“Concordo com a citação dos outros dois. São produções brilhantes. Mas se não houvesse ‘Caligari’, muito do que foi desenvolvido no cinema posteriormente a ele não teria existido. Todo cinema de invenção passa por ‘Caligari’ necessariamente”, registra o crítico, que é doutor em estética e história da arte pela Universidade de São Paulo.

O filme é um dos marcos do movimento do expressionismo alemão, ao lado de “Nosferatu” (1922), de Friedrich Murnau, e “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang, em que se destacam temas ligados ao fantástico, cenários angulosos e efeitos de sombra e luz. A história acompanha um hipnotizador que manipula um sonâmbulo a realizar crimes.

“‘Caligari’ é tão potente até hoje que continua influenciando cineastas”, assinala Correia. Para ele, o filme representa o primeiro momento de grande ruptura da história do cinema. “Foi o nascimento da importância autoral. Diferentemente do <CF36>star system</CF> do cinema americano, ele é sustentado menos pelo elenco e mais por seu arranjo estético”.

Retrato da Alemanha

O longa também serve para ilustrar o momento político e social da Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial, que entrou em crise econômica devido às indenizações e a cessão de territórios aos vencedores. Ali se criaria o ambiente ideal para a ascensão do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, com Adolf Hitler à frente.

“O roteiro foi escrito por dois ex-soldados (Carl Mayer e Hans Janowitz) que, como todo jovem alemão, estavam muito desiludidos. Eles escrevem uma espécie de metáfora em que o fato de haver uma autoridade a comandar a sua vida é nocivo. A cidade para onde Caligari vai é pacífica e se desmantela após a chegada dele”, analisa.

Esta versão não perdurou e, com uma segunda versão, o final em que o hipnotizador é preso num hospício foi alterado. Com isso, o mocinho da trama passa a ser o vilão, aparecendo como um interno do sanatório, tendo imaginado tudo. “Assim entende-se que é preciso de alguém superior para promover a cura, para sair do estado de letargia e frustração”.

Correia não tem dúvidas de que “O Gabinete do Doutor Caligari” foi o prenúncio de Hitler e da ascensão do regime totalitarista. “O que o filme quer mostrar, assim como outras obras expressionistas, é que já havia uma predisposição dos alemães a se curvar a uma força maior que pudesse providenciar a tal cura”, observa.

Na história, velho hipnotizador manipula o assistente sonâmbulo a cometer crimes nas cidades onde a dupla se apresenta