Velho com gosto de novo. Com edificações antigas passando a ganhar cores e beleza nas mãos de artistas do Brasil e do exterior, a antes deteriorada região central de Belo Horizonte poderá se transformar, brevemente, numa das capitais da arte urbana no mundo. Este é um dos objetivos do Cura – Circuito de Arte Contemporânea, festival de pinturas em prédios que chega à terceira edição no próximo dia 5.
 
“Nosso desejo é ver BH se tornando uma referência internacional, com os turistas vindo para cá não só para dormir e ir para (o museu) Inhotim ou Ouro Preto no dia seguinte. A street art é um fator turístico importante”, observa a idealizadora Juliana Flores, ressaltando que, entre as 40 cidades mais importantes na arte urbana, o Brasil só comparece com São Paulo.
 
Com as quatro empenas (paredes laterais de prédios) que se encherão de cores nesta edição, no Amazonas Palace Hotel, no Edifício Chiquito Lopes e nas duas torres do Edifício Satélite, todas elas no Centro, o total chegará a dez, ainda menos da metade dos locais já levantados (26) pelos organizadores. Para 2019, eles já “namoram” seis espaços.
 
O critério de escolha dos prédios passa, necessariamente, pela rua Sapucaí, que também recebe a programação cultural do festival. É preciso que eles estejam no horizonte do mirante instalado num dos quarteirões (desta vez será entre a avenida Francisco Sales e a rua Tapuias). “Deste mirante lindo poderemos apreciar dez murais gigantescos”, avisa Juliana.
 
Como uma edição nunca é igual à anterior, a novidade agora é a elaboração, numa das torres do Edifício Satélite, de um trabalho temático, envolvendo a caligrafia, que terá a participação de 20 artistas. “Por que vamos homenagear a caligrafia? Porque ela é a arte fundadora do grafite. Quando nasceu nos anos 70, no Bronx (bairro de Nova York), o grafite era só letra”, recorda.
 
Os curadores Surto e Mica, ambos de Belo Horizonte, estão à frente desta homenagem que, para Juliana, representará, do ponto de vista da arte contemporânea, uma ousadia estética. Memorável também será o trabalho desenvolvido por Comum, na outra torre, que abrigará o maior mural na técnica de stencil no mundo, com 65 metros de altura.
 
O Cura também receberá Hyuro, argentina residente na Espanha, principal nome feminino do muralismo contemporâneo. “Ela não trabalha com spray, mas sim com o pincel, vinda de uma escola de pintura mais clássica e que se encontrou fazendo trabalhos em grandes dimensões”, detalha Juliana. Nas edições anteriores, passaram pelo festival a argentina Milu e a espanhola Marina Capdevila.
 
O tom político se fará presente a partir da estética de cada artista. Hyuro, por exemplo, busca sempre provocar a reflexão, abarcando sutilmente questões sobre a mulher na sociedade patriarcal. 
 
Outra participante, Criola, é fortemente influenciada pela cultura africana. “Além das referências dela, como mulher negra e militante, ela irá buscar uma africanidade ancestral, valendo-se de uma paleta de cores fortes”, registra.