GRAMADO – A cada frase, Carla Camurati dá uma rápida pausa para abrir um sorriso. Com quase 40 anos de carreira, exibe o mesmo rosto que a consagrou no cinema como uma das musas da década de 1980, em filmes como “O Olho Mágico do Amor”, “Cidade Oculta” e “Eternamente Pagu”. Aos 58 anos, a ex-atriz (garante nunca ter fechado as portas para a atuação, apesar de o último trabalho ter sido em 2003) e diretora foi uma das homenageadas do Festival de Cinema de Gramado, na serra gaúcha. 

Ela recebeu o troféu Eduardo Abelin, prêmio que celebra diretores, cineastas ou entidades do cinema nacional desde 2002, e se junta agora a nomes como Roberto Farias, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Walter Carvalho, Hector Babenco, José Mojica (Zé do Caixão) e Carlos Saldanha, detentor da honraria no ano passado.

Como cineasta, Carla ficou marcada por criar um dos grandes sucessos da fase de retomada do cinema brasileiro, na década de 1990, com “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”. Apesar de não vislumbrar uma grande crise cultural, com a possibilidade de fim de algumas estruturas de produção, admite que muitos dos filmes em que trabalhou como atriz não seriam lançados hoje. “Não tem nenhum filme que fiz que não tenha política, sexo e religião. São temas que existem e que não podem deixar de ser discutidos”, registra. 

Camurati se arrepende de alguns deles, mas prefere não dar nomes aos bois. “Se falar, será o assunto principal da matéria”, diverte-se. Entre as cenas favoritas dela estão as de dança de “Cidade Oculta” e “O Corpo”. Mas prefere não se ver, dedicando-se “compulsivamente” à direção. 
Após oito anos à frente do Theatro Municipal, no Rio de Janeiro, trabalha em dois documentários, um deles sobre o período de redemocratização do país, que terá o título de “História do Tempo Presente”.

Você está montando o filme “História do Tempo Presente”, que trata do período de redemocra-tização do país. De que forma ele se aproxima de outros documentários recentes, como “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, e “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa?

É muito diferente, é um recorte, como diz Jorge Furtado, meu cineasta predileto. Não há trabalho dele que eu assista e não acenda uma luz dentro de mim. Para contar a nossa história política, estou procurando fazer um recorte dos fatos e da emoção, e não de pontos de vista. E a partir desses fatos vamos ver o que está acontecendo hoje. Abordamos desde as Diretas Já até a posse do atual governo, passando por oito presidentes. Não fazemos denúncia ou apontamos dedos. Nada disso me interessa. É melhor ver o que aconteceu, sem elipses de tempo, para conhecer essa história. Estou bem feliz com o filme. É bem difícil fazer um filme só com imagens, pois temos uma coleção maravilhosa por um lado, e algumas muito feias de outro. Mas o conteúdo é tão rico que a beleza pouco importa.

Você ficou oito anos à frente da direção da Fundação Theatro Municipal, no Rio de Janeiro. Seu último longa-metragem lançado foi “Irma Vap - O Retorno”, de 2006. Sentiu muita falta de estar no set dirigindo um filme?

O cinema está na minha vida desde os sete anos de idade. Eu realmente tenho uma paixão. Se você me colocar em qualquer função dentro do cinema, serei feliz ali. Então, por isso produzi, distribui, escrevi, atuei... Se falta uma figurante, eu falo “ok, me dá a roupa. Não tem problema, eu faço de costas”. No “Carlota Joaquina”, tem uma cena que foi exatamente assim – precisávamos de uma menina, que não foi no dia, e aí perguntei se a roupa dela cabia em mim. Pouca gente percebe essa cena, porque eu fico de costas o tempo inteiro. 

Cinema é parte da minha vida em todos os sentidos porque é muito cotidiano. Eu tenho uma relação com o cinema que é muito delicada, que é o fato de não aguentar violência. A escala das imagens exerce um poder dentro de mim muito grande... Se eu assisto a um filme muito violento, elas (as imagens) ficam passando por minha tela mental, apesar de conhecer absolutamente tudo de como se faz. Por isso prefiro fazer filmes operísticos e óperas cinematográficas, porque o cinema e a ópera conversam muito, em todos os sentidos. Uma na escala de som e o outro na escala de imagens.

Como foi receber esta homenagem do Festival de Gramado?

Foi algo muito especial. Na verdade, fiquei nervosa porque estava finalizando um filme, um trabalho muito delicado, feito na montagem, em que não se abre câmera. É como se juntasse uma série de imagens de lugares diferentes e fizesse um grande mosaico sobre a história do país. Eu realmente trabalho compulsivamente porque a carga de imagens que eu tenho para ver é muito grande. E você costurar essas imagens é um trabalho muito delicado. 

Em relação a Gramado, ele é no Brasil. Gramado conseguiu passar por todas as curvas. Nunca foi interrompido, exibiu os melhores filmes e teve os maiores embates, trazendo praticamente tudo pelo que o cinema brasileiro passou. Esta homenagem foi a cereja no bolo na minha relação com o cinema. As pessoas me pagam, eu ganho prêmios por fazer isso! Eu poderia estar pagando pelo que estou fazendo. Trabalho compulsivamente porque eu gosto. Não tem ninguém dizendo que hora eu vou parar ou começar. Não sei viver longe desta relação.

No primeiro Festival de Gramado do qual participou, em 1982, você recebeu uma menção honrosa do júri pelo papel em “O Olho Mágico do Amor”, de José Antônio Garcia, um dos diretores com que mais trabalharia. Com ele também ganharia um prêmio especial por “Estrela Nua” (1985).

José Antônio foi meu amigo número um (o diretor faleceu em 2005, de falência múltipla dos órgãos). Ele é meu amigo número um. Na época que viemos com “O Olho Mágico do Amor”, tínhamos a vontade de fazer um filme sobre Clarice (Lispector). A gente começou a escrever um roteiro, mas nunca foi realizado. Durante o festival, ao fim da noite, ele entrava no meu quarto e perguntava “Vamos ler Clarice um pouquinho antes de deitar?”. E líamos um para o outro. Minha história com o cinema vem do aprendizado com os diretores que eu tive, sempre gostei de observar o set.

Quais foram os desafios em coordenar o Theatro Municipal?

Vim da iniciativa privada, que me deu um aprendizado grande. Fico feliz em ter botado minha energia de trabalho em alguma coisa que era pública, para um bem comum, e para que a cidade aproveitasse aquele teatro que estava tão abandonado. Também fui diretora de cultura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, responsável pela parte de conteúdo. Foi fascinante! O Brasil é tão rico, tão especial. Quando você precisa mergulhar nesta cultura, trazendo gente do Brasil inteiro para os Jogos, acaba descobrindo cada coisa. É de uma riqueza, de uma criatividade! Eu nunca quis sair do Brasil. Sempre quis conquistar o Brasil, no sentido de poder trabalhar para que as coisas melhorassem.

Outro documentário em que você está trabalhando é sobre o papel das mulheres nas religiões. Como tem sido esta experiência?

Não dá para discutir feminismo sem falar das religiões. Quando você vai estudar esta relação, é inacreditável as coisas que acaba encontrando neste mundo. Você vê que não sabe de nada. No filme, abordarei as cinco maiores religiões do mundo – hinduísmo, cristianismo, budismo, judaísmo e islamismo, que vem crescendo numa velocidade incrível – e como elas veem o papel das mulheres. Há raízes profundas nessa relação. Não me sinto à vontade em dizer que o movimento feminista é assim ou assado. Sobre esse assunto, há muita coisa a ser dita, mais do que as atitudes que tomamos hoje sobre qualquer aspecto. É uma história feita por homens. E para homens.

Você teme que, pela forma como as leis de incentivo e os órgãos dedicados ao cinema vêm sendo questionados, estes dois documentários não se concretizem futuramente? 

Prefiro sempre os fatos - e o “História do Tempo Presente” me traz esta sensação. Sempre devemos reagir a fatos. Do contrário, ficamos muito reativos, expondo mais do que precisa. O filme terá um prólogo de dez minutos, mostrando a campanha das Diretas, em que a última frase é a do (deputado federal) Ulysses Guimarães, que, segurando a Constituição, afirma “Que Deus nos ajude, que isso se cumpra”. Acho que é isso. As leis têm que ser cumpridas, algumas ações precisam ser respeitadas. O cinema brasileiro vive um momento muito especial e é uma fonte muito poderosa, financeiramente falando.

Hoje o mundo é feito de imagens. Um dentista precisa lidar com imagens. O investimento em audiovisual é estratégico. Não tem como não querermos cinema. A gente tem que querer, é assim que o mundo anda. Quando a gente fica reativo é muito ruim pois acabamos caindo em arapucas. Hoje estou muito concentrada no que estou fazendo. Precisamos nos relacionar com fatos e não com falas. Menos brigas e mais conversas. Na mesma hora em que ficamos bravos, acende a burrice. O melhor é respirar, contar um, dois, três e segurar de novo. Sem inteligência emocional, a gente vira presa fácil para qualquer coisa. Não há uma nova crise cultural. Tem ainda uma grande quantidade de filme para sair.