“Não estava em busca de ser a primeira ou a última!”, afirma Adelia Sampaio, diretora nascida em Belo Horizonte que, com o filme “Amor Maldito”, lançado em 1984, entrou para a história do cinema brasileiro ao se tornar a primeira mulher negra a assinar um longa-metragem de ficção.

Vivendo no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, há várias décadas, Adelia será homenageada do Santos Film Festival, com início no dia 16, na cidade praiana paulista. Ao Hoje em Dia, ela lembra da dificuldade que foi produzir “Amor Maldito”, principalmente pela ousadia do tema: o amor entre duas mulheres.

“Eu tinha um desejo certo de que, após alguns curtas-metragens, conseguiria realizar um longa de abordagem difícil. Não foi fácil rodar o filme. Só consegui porque, na época, a minha irmã Eliana Cobbett, era produtora executiva”, registra Adelia, que fez “Amor Maldito” em forma de cooperativa.

“Do menino que servia café à protagonista Monique Lafond, tudo foi feito em cooperativa”, assinala a cineasta, que descobriu o mote da trama após ler uma notícia de jornal, sobre uma garota de família religiosa que se envolve com outra mulher. A menina acaba se suicidando e sua namorada é apontada como responsável.

“A garota se apaixonou e, após se aconselhar com o pastor, este foi tomado pelo ódio e a despachou para um sítio no interior de Minas para fazer a cura gay. O relato é chocante e muito triste”, lembra. Para o elenco, além de Monique, o filme contou com Emiliano Queiroz, Neuza Amaral e Wilma Dias.

“A recepção não foi lá grandes coisas. O exibidor em São Paulo se propunha a lançar desde que o travestíssemos de pornochanchada. Assim ele foi lançado e salvo pelo crítico Leon Cakoff, que fez um texto elogiando a condução do filme e alertando que não era pornô”, recorda Adelia Sampaio.

O público correu para as salas, o exibidor dobrou o número de cinemas e, ao chegar no Rio de Janeiro, “foi tudo de lindo”, de acordo com a cineasta, que, aos 77 anos, continua em atividade. Antes da pandemia, ela rodou o curta “Olhar de Dentro”, com a atriz Stella Miranda. “Meus filmes estão no YouTube para qualquer um assistir”.

Entre os seus próximos projetos, está  “A Barca dos Visitantes”,  que abordará a ditadura militar no Brasil a partir de 35 cartas enviadas a presos políticos. “Estou em busca de um produtor ou produtora que possa caminhar lado a lado comigo, já que minha irmã faleceu. Não creio que o filme será agraciado por leis. Estamos em tempos de Bolsonaro”, lamenta.

Sobre o crescimento de realizadoras negras no país, Adelia diz que tem acompanhado os filmes, “uns muito bem narrados e outros tecnicamente mau conduzidos”. E revela uma grande admiração pela diretora fluminense Yasmin Tainá, que “narra suas obras com leveza e sem radicalismo”.