Não é difícil entender o sucesso de “Milagre na Cela 7”, um dos filmes mais acessados na Netflix. De origem turca, uma cinematografia cuja produção comercial é pouco conhecida (no campo   autoral, há  nomes premiados como Nuri Bilge Ceylan, Fatih Akin e Ferzan Ozpetek, estes dois trabalhando em outros países atualmente), o longa-metragem segue fielmente os preceitos de um bom melodrama.

Na história de um pai com autismo que vive com a mãe e a filha e é preso injustamente, ao ser acusado pela morte de uma garota, os principais ingredientes estão lá, em especial a ideia de que o mal sucumbirá diante do mais puro amor. O autismo de Memo o reveste de uma inocência contagiante, utilizada em prol da narrativa, nas relações entre os personagens e no desfecho (de certa forma, religioso) do filme.

A relação dele com a filha estabelece uma proximidade que o põe no mesmo nível da doce Ova, uma criança escolhida a dedo para transmitir a ideia de candidez. Não por acaso, ao explicarem o conceito de morte para Ova, o simbolismo usado são os anjos. Desta forma, Memo seria mais um anjo a ir para o céu – ele está condenado à forca, situação acelerada devido ao fato de o pai da garota morta ser comandante policial.

Esta atmosfera angelical é sublinhada ainda pelos companheiros de prisão de Memo, alguns deles autores de crimes pesados. O preconceito inicial dá lugar a uma noção de repulsa às avessas – o autista não pode estar naquele lugar por ser o único inocente entre eles, criando uma espécie de movimento de auto perdão, com cada um fazendo o que pode por Memo.

As melhores cenas de “Milagre na Cela 7” se passam na prisão, especialmente quando Ova consegue entrar na prisão para ver o pai, fundamental para a solução final. Neste sentido, a mensagem é bastante clara, com a pureza sendo capaz de vencer todos os males, um ideal presente nos melhores melodramas.

Evidentemente que esta abordagem não é tão simples como aparenta, bastando arranjar enredos moralistas. O mérito do diretor Mehmet Ata Öztekin é nos fazer crer que há uma ação do destino em jogo, de que existe a redenção para os misericordiosos, desde que não abram mão de sua fé ou ideal.

Essa sensação de sofrimento e posterior bem estar nos melodramas é justificada por um mecanismo característico do ser humano, em se fiar à esperança de que tudo passará. “Por pior que seja a noite, amanhã é outro dia”, já dizia a personagem Scarlet O’Hara em “...E o Vento Levou” (1939), um clássico do gênero.