André Carreira se diverte vendo “Tudo Bem no Natal que Vem” em vários idiomas na Netflix, onde o filme estreou há poucas semanas exibindo uma performance inédita para uma produção nacional, entrando na lista dos mais vistos do mês em países como Alemanha, Portugal e Estados Unidos.

É a grande prova de que o produtor mineiro fez a escolha certa ao trocar, em 2013, Belo Horizonte pelo Rio de Janeiro. Ele montou uma filial da empresa Camisa Listrada e, em menos de sete anos, foi o responsável por grandes sucessos como “O Candidato Honesto”, “Os Farofeiros” e “Fala Sério, Mãe!”. 

Nesta entrevista, Carreira fala do êxito do filme protagonizado por Leandro Hassum e de sua trajetória iniciada como estagiário de produção, em 1997. “Existem muitos produtores que atuam mais no sentido financeiro. Eu sou um operário do audiovisual. Nunca fui o cara dos holofotes. Gosto do fazer cinema”.

Como você analisa a recepção de “Tudo Vai Bem no Natal que Vem” no exterior?

A gente está acostumado com os sucessos locais e foi muito bom ter este gostinho de uma repercussão internacional. Acho que é a primeira vez que temos esta oportunidade de lançar um filme em mais de 180 países, de forma simultânea. Ele foi dublado para o inglês, o alemão, o francês, o italiano, o espanhol... A dublagem italiana ficou perfeita. É um idioma em que a atuação do Hassum casou muito bem. Está bem divertido. Foi curioso ver como as piadas foram adaptadas nestas diversas línguas.

“Quando fechamos esta parceria com a Netflix foi para fazer nos moldes de Adam Sandler, no sentido de dar todas as condições para que Leandro Hassum pudesse brilhar” 

O filme ajuda a romper com uma ideia de que comédias locais não conseguiam “vender” bem no mercado externo, não é verdade?

Exato. Há esta percepção de que comédias locais não viajam. É uma coisa que sempre ouvi, mas neste filme a gente conseguiu uma coisa – também no “Fala Sério, Mãe!” – que é misturar o humor com a emoção. É raro conseguir aliar estas duas emoções num mesmo filme. Eu lembro que, no “Fala Sério, Mãe!”, as pessoas riam bastante, mas também saíam bem emocionadas. Li posts de três gerações que tinham ido assistir juntas. Virou um programa coletivo. Em “Tudo Bem no Natal que Vem”, eu senti uma repercussão ainda maior neste sentido. Muita gente escreveu coisas como “não acredito que chorei no filme do Leandro Hassum” e “melhor filme de Natal que já vi”. É um filme que toca muito as pessoas. O Natal costuma ser um período de balanço, ainda mais num ano tão complicado como foi o de 2020.

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Com o elenco de "Candidato Honesto", um dos grandes sucessos da produtora

A Camisa Listrada se transformou numa grande produtora de audiovisual. Como surgiu a ideia de levá-la para o Rio de Janeiro?

Minha história sempre foi de idas e vindas, fazendo a ponte aérea BH-Rio. Comecei na época em que fazia Publicidade e Propaganda na faculdade, em 1997, quando tive a oportunidade de trabalhar na VT3, produtora de Helvécio Ratton. Quando foi fazer “Amor & Cia” em São João del-Rei e Tiradentes, ele me chamou para fazer um estágio de produção. Aceitei na hora, porque meu sonho era trabalhar com cinema, embora se produzisse muito pouco naquele tempo. Estávamos ainda no início da retomada, sem conseguir estar numa atividade plena no Brasil. Tive esta sorte de ser convidado e agarrei com unhas e dentes. Grande parte da equipe técnica era do Rio de Janeiro e eu me dei muito bem com ela. Assim que as filmagens terminaram, eles me chamaram para ir para o Rio para trabalhar em outros projetos. Foi até engraçado, porque eu fiquei meses morando em São João e, quando retornei para casa, minha mãe disse “Que bom que você voltou!”. Eu respondi que estava apenas passando para pegar mais coisas, pois estava indo morar no Rio (risos). Foi uma coisa muito de ímpeto, que eu sempre tive em minha vida. As oportunidades apareciam e eu me jogava nelas, já que cavalo selado não passa em sua frente duas vezes. Foi uma ascensão bem meteórica, porque trabalhei no “Amor & Cia” como estagiário de produção e, no filme seguinte, um média-metragem com Matheus Nachtergaele e Paulo Autran, chamado “O Enfermeiro”, já fazia platô, uma função várias casas acima e que é muito importante no set. Depois participei de “Lavoura Arcaica”, “A Partilha”, “Duas Vezes com Helena” e filmes da Xuxa e dos Trapalhões. Ficava indo e vindo.

A primeira produtora que você abriu foi a NaTora, ao lado de sete realizadores. Como foi esta experiência?

A gente brincava que a NaTora não era uma produtora, mas sim uma banda, pois tinha oito sócios! Era algo bem irreverente, com poucos compromissos comerciais. Era quase um coletivo de realização. Fizemos um documentário chamado “Secos e Molhados”, que ganhou a Mostra de Tiradentes. Ganhamos o Festival do Rio com “Água Benta, Fé Ardente”, sobre a lavagem do Cristo com cachaça em Morro Vermelho. Em 2001, a NaTora terminou. Nesta época, o Helvécio Ratton me chamou para voltar, para ser diretor de produção de “Uma Onda no Ar”, em que peguei do zero, ajudando a fazer todo o desenho de produção. Com ele, galguei mais um degrau, deixando o platô para ser diretor de produção. Resolvi que o meu lugar seria BH, até porque a cena estava bem diferente, mais efervescente. Tinha a geração do digital que estava aparecendo, aproveitando o barateamento dos equipamentos e montando pequenas produtoras. Antes, para se manter uma produtora, você precisava de um investimento de centenas de milhares de dólares. A NaTora, a Mosquito e a Teia foram filhotes do digital. Numa estrutura antiga, talvez estas produtoras não tivessem nascido. A gente tinha uma câmera mini-DV e um iMac e a produtora se fazia só com isso. Em 2001, me tornei sócio da Camisa Listrada, aberta por Armando Mendz e Rodolfo Buaiz, iniciando uma grande produção. Fomos uma das que mais produziu em Minas, fazendo documentários como “Sumidouro” e “Descaminhos” e ficções como “Fronteira”, “Cinco Frações de uma Quase História” e “Mão na Luva”. Essa fase aí termina com “O Menino no Espelho”.

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Produtora foi criada em Belo Horizonte e abriu, há sete anos, filial no Rio de Janeiro

Realizar “O Menino no Espelho”, baseado em livro de Fernando Sabino, representou um grande salto em termos orçamentários. Como foi fazer esta produção?
Realmente foi a produção de maior porte, depois de vários filmes de baixo orçamento, feitos na garra. Saltamos de R$ 1 milhão e pouco para R$ 5 milhões. Era um filme de época, com atores reconhecidos. Foi um divisor de águas na Camisa, abrindo uma porta para grandes produções. Eu me lembro que, em 2012, voltando da filmagem, após seis meses em Cataguases, encontrei um cenário bem desanimador. Todos os realizadores descontentes, quase não havia incentivo para a produção em Minas. “O Menino” levou quase seis anos para ser realizado. Então disse à minha esposa que não ficaria mais seis anos para fazer outro filme. Não tinha condição. Sempre almejei fazer projetos com maior valor de produção, que pudessem se comunicar com o público. A repercussão é o meu retorno máximo. É o que me dá prazer como produtor.

Foi este cenário desanimador que o levou a fincar raízes no Rio?

O Rio estava em eferves-cência, com Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Era o melhor momento do Fundo Setorial da Ancine. E muitos produtores do Rio falaram para eu vir para cá, pois havia muita oportunidade. Em 2013, abri a filial da Camisa aqui. E logo que cheguei a gente já coproduziu uma série. Um ano depois, iniciamos a parceria com o (diretor) Roberto Santucci, o (roteirista) Paulo Cursino e o Leandro Hassum, com “O Candidato Honesto”. De lá para cá fizemos muitos filmes e séries, uma produção que me orgulha muito. Atingimos quase dez milhões de espectadores nos cinemas e também batemos recordes de audiência nas TVs aberta e fechada. Coroamos essa nova era que estamos vivendo, do streaming, com duas produções de repercussão muito grande. Além de “Tudo Bem para o Natal que Vem”, para a Netflix, o “No Gogó do Paulinho” foi exibido na Amazon, que também está indo muito bem.

“Já fiz uns seis, sete testes. Por causa da Covid, eu tive que virar especialista em segurança do trabalho. Estamos enfrentando um desafio muito grande para continuarmos a produzir” 

Apesar de a Netflix surgir como importante parceiro no cinema brasileiro, muitos realizadores afirmam que, do ponto de vista econômico, não é vantajosa. Você concorda?

É um modelo de negócio diferente. No streaming, você desenvolve a produção e cede os direitos de exploração para os players. Tem uma questão que vale a pena ser colocada e discutida, que é a da propriedade intelectual. “O Candidato Honesto”, por exemplo, é um filme que se tornou uma marca nossa. Ele já gerou uma continuação e um remake feito na Coreia do Sul, onde liderou as bilheterias no país. Eles renovaram o contrato com a gente e devem fazer uma segunda parte na Coreia por agora. Tem um remake para ser feito na Espanha e estamos em negociação com o México. O filme vira um patrimônio, diferentemente da produção para o streaming. Em compensação, você ganha uma parceria muito grande durante a produção. A experiência com a Netflix foi muito positiva para nós, porque há o interesse deles em melhorar o nível de produção no Brasil e investir mais, além de buscar projetos que ousem mais, em gêneros diversos. Isso abre a porta para possibilidades que não estávamos tendo. Estávamos muito engavetados num padrão da Agência Nacional de Cinema (Ancine) de financiamento que limitava muito o tipo de filme que poderíamos produzir. As pessoas perguntam a razão de se produzir tantas comédias no Brasil e a explicação está no fato de ser um filme barato de se fazer, precisando basicamente dos atores e de um bom diálogo. Num mesmo cenário, você pode fazer sete ou oito cenas de um diálogo hilariante que levará todo mundo às gargalhadas. Devido à ótima recepção de público, as comédias mostraram que têm um potencial econômico melhor, de retorno para o produtor, dentro dos financiamentos existentes.

A produtora deverá rodar este ano “Farofeiros 2”, para lançamento nos cinemas. Como você analisa o mercado brasileiro atual, que perdeu vários incentivos estatais importantes e vê Ancine quase paralisada?

Somos uma das produtoras mais atuantes e não rodamos nada há dois anos com recursos geridos pela Ancine. O último que a gente rodou foi “No Gogó do Paulinho”, em janeiro de 2019. Realmente é uma crise muito grande. Por mais que haja todo um discurso por parte da Ancine, de que as coisas continuam andando, na prática, do nosso lado, é como se houvesse uma paralisação. Uma coisa ou outra está sendo liberada, mas a velocidade de andamento dos processos está muito lenta. Com isso, a gente não pode mais planejar. Estamos num momento em que temos que deixar de lado o investimento do Fundo Setorial e de recursos geridos pela Ancine para focar em outros modelos de negócio. Agora, nós temos condições de fazer isso, mas e estas produções de diretores que estão começando e de filmes mais autorais? Elas não vão encontrar outro lugar nestes novos modelos, que visam produções mais ambiciosas em termos de público. O cenário é muito preocupante para produtores pequenas e médias, que devem estar sofrendo muito com esta situação. A gente precisa que surjam novos diretores e produtoras para oxigenar o mercado. Ninguém começa produzindo um filme para Netflix. Existe aí uma escadinha, com um passo de cada vez. Se cortam o financiamento para toda esta turma que está começando, gente que está apostando em novas linguagens e formatos, o mercado acaba se concentrando nas produtoras que têm maior capacidade de produção, sem ter uma renovação constante.

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Trabalhando no set em tempos de pandemia

A história do cinema brasileiro é marcada por produtores que tinham uma participação política forte, como Barretão, ]Aníbal Massaini, Antonio Galante e Zelito Viana. Como você se define como produtor?

Sempre apoio os sindicatos patronais, tanto no Rio como em BH, já que continuamos com a Camisa Listrada aí, com diversos projetos sendo desenvolvidos. Eu sempre acredito que a mobilização e a união na área são aspectos que propiciam conquistas. Minha participação é muito mais no intuito da proposição, em buscar um diálogo. Eu entendo que muitas pessoas  tomam isso mais à frente, numa coisa mais corpo a corpo, vamos dizer assim. Tem produtores que estão sempre ali no Congresso, lidando mais diretamente, principalmente agora que a cultura vem sendo atacada e colocada na berlinda. É muito importante que a gente se faça presente e seja escutado, para manter a nossa voz viva. Eu nunca tive este estilo. Sou mais mineiro neste sentido e confesso que existe muito pouco tempo para fazer isso. A minha formação é do fazer, do cara que começou fazendo estágio de produção. Tem muito produtor que entra mais na questão financeira, como muitos produtores americanos, que são aqueles bancam o filme. Existem produtores no Brasil que têm este perfil também. No meu caso, sempre fui um operário do audiovisual, de colocar a mão na massa. É nisso que me realizo. Nunca fui o produtor dos holofotes, mas sim aquele que fica nos bastidores.

Quais são os próximos passos da Camisa Listrada?

A gente tem sempre que estar consolidando o que construiu. As pessoas vão lembrar de você pelo último filme que fez. A indústria de cinema é um pouco isso. Não adianta fazer um sucesso e depois ter dez fracassos. Neste sentido, há uma aposta muito grande nas franquias que já deram certo e que têm potencial comercial. Vamos continuar com a parceria com o streaming, com alguns projetos já em produção. Em 2021, teremos um lançamento para o cinema e outro para o streaming. E, como um desafio pessoal,  meu intuito é abrir a produtora para outros gêneros. Estamos desenvolvendo projetos de filme policial e uma série que mistura drama, thriller e ficção científica. Nenhum demérito em sermos marcados como a produtora das comédias, mas quero investir em outros gêneros.