Pensou em crítica musical, vem à mente o nome de Terence Machado. Afinal de contas, há duas décadas ele chega à casa de milhares de pessoas, todas as semanas, falando exatamente de sua paixão. Criador, editor e apresentador do “Alto Falante”, Machado faz história na TV com garra – sujeito às mudanças corriqueiras das redes públicas – e com o desejo de não deixar o jornalismo crítico morrer. “Se não tivermos cuidado, vamos fazer um jornalismo de release”, observa nesta entrevista ao Hoje em Dia.
 
Quando o primeiro “Alto Falante” foi ao ar, acredito que você jamais imaginaria que iria tão longe, chegando a duas décadas na grade fixa da Rede Minas. O feito se torna mais eloquente por ser ele um programa muito específico, sobre a cena musical no país, produzido por uma TV estatal em Minas Gerais.
É como se fosse um filho mesmo, vendo-o crescer e se tornar um homem feito. Quando comecei, era muito novo ainda. Conversando com o (cantor e ex-vocalista do Engenheiros do Hawaii) Humberto Gessinger, entrevistado no programa que foi ao ar no último final de semana, eu perguntei como foi lançar “A Revolta dos Dândis” há 30 anos, já que antes ele era um garoto e agora é um senhor. E comigo começa a ter esse efeito. Muita gente vem me falar que assiste ao programa desde criança. O que nos faz ter o cuidado de, após tantos anos, manter um quê de juventude, para não perder o link com este público, apesar de muita gente ter envelhecido junto com o “Alto Falante”. Sempre vai ter alguém descobrindo os Beatles, o Led Zeppelin, todos aqueles clássicos do rock. Por isso que o Adriano Falabella (comentarista do programa), além de figuraça, é tão venerado, é um cara que sabe contar a história como poucos. Voltando à questão dos 20 anos, é como você falou: o programa é jornalístico, tratando de cultura e música, na TV educativa. Lá trás, se eu pensasse em cinco anos, já seria muito.
 
Quais os principais ingredientes que deram ao programa esse caráter longevo?
Foram várias conquistas. Com pouco mais de um mês de programa, conseguimos acompanhar um festival internacional, a Beatle Week. Para uma TV, isso não era comum. Foi, de cara, um senhor passo. E, em 1999, com dois anos no ar, nós entramos em rede nacional, sendo exibido na TV Cultura. Algo incrível, porque tem toda a questão do bairrismo, de um mercado dominado por Rio de Janeiro e São Paulo, de quererem fazer o programa deles. E a gente também contribuiu para esse protecionismo, ao crescer ouvindo que estávamos protegidos pelas montanhas.
 
“Minas tem sido o principal celeiro de novas bandas, em todos os gêneros. A tríade Skank- Pato Fu-Jota Quest serviu para abrir os olhos de muita gente. Como a tecnologia facilitou muito a gravação, mais e mais artistas estão produzindo seus próprios trabalhos. Aprenderam que as rédeas estavam nas mãos deles, gerindo a própria carreira”
 
E isso aconteceu também com as bandas mineiras, que demoraram a conquistar outros territórios.
Para bandas como Skank foi muito difícil furar esse bloqueio. Sempre tivemos muitos talentos, muito antes do Clube da Esquina, embora este tenha sido o primeiro movimento daqui com vários artistas que apareceram para o Brasil e para o mundo. Mas é uma história que ficará cada vez mais incomum, pois não sabemos para onde o jornalismo irá, por causa das redes sociais. Está tudo mudando. Somos uma geração de transição.
 
Nestes 20 anos, muita coisa mudou, até mesmo em relação à música, pois as gravadoras perderam importância.
Quando você não tinha uma gravadora, você ficava ali meio à margem, underground eternamente. A gente nunca teve um mercado no meio do caminho, um mercado alternativo que funcionasse de fato, como nos Estados Unidos, que tinham o apoio das rádios universitárias. Bandas como R.E.M seguiram esse caminho. No Brasil, tivemos boas bandas que conseguiram espaço, sendo atropelados por uma nova tendência. Por parte do “Alto Falante”, a gente mergulhou de cabeça neste novo meio que era a internet. Lembro que a gente disparava newsletter já todo ilustrado, pelo Outlook mesmo. Tudo que ia aparecendo de novo a gente sugava rapidamente. Fomos o primeiro programa da TV a ter site, antes mesmo da Rede Minas. Fomos também o primeiro programa da casa a estar em todos canais, como YouTube, Twitter, Facebook, etc.
 
Hoje deve ter muita banda tentando ganhar um espaço de divulgação no programa. Como é gerenciar isso? Você devem receber centenas de CDs por mês...
Hoje são links que recebemos (risos). Mas antes a quantidade era menor, porque o cara já olhava e definia se queria ser pequenininho ou se iria passar por um gravadora de algum modo. Na época, as gravadoras mandavam uma compilação de videoclipes e cada programa televisivo– e não eram muitos–fazia o seu filtro e mandava para o ar. Agora não, tudo vai para o ar, alternativo ou não. E qual é o papel do “Alto Falante”? Continuar a fazer o nosso filtro, porque ter tudo é, ao mesmo tempo, não ter nada. As pessoas querem um pouco mais, querem uma chancela. Vejo pelo Falabella, um cara que sabe romancear. Com ele, não é só um clipe do Jimi Hendrix, ele quase coloca o espectador dentro de algum episódio envolvendo o músico. Aprendi muito com ele a “rechear o bolo”. Já no YouTube, está tudo muito solto. Você tem o novo da Taylor Swift, o novo da banda de metal mais extremo, mas quem está ligado em música quer algo mais. A crítica continua tendo importância. Isso não se perde – os cadernos de cultura, por exemplo, têm pessoas legais e entendidas escrevendo.
 
“Mesmo nas TVs públicas, você tem que fazer um programa para ser visto, sem precisar entrar na guerra de audiência. Uma pesquisa como essa foi feita pouquíssimas vezes na Rede Minas nestes 20 anos. Essas mudanças excessivas de grade de programação, por conta da entrada e saída de diretor, é o que mais jogou a TV pública no chão”
 
Falando em filtro e modismos, vocês estão abertos a todos os gêneros, como sertanejo e axé, ou há um limite?
O primeiro limite é a gente pensar não só no estatuto das TVs públicas e educativas, mas também que há tanta gente legal para falar que não tem a mesma mídia desses fenômenos de massa – é só entrar no YouTube e ver aqueles números absurdos. Por que também teremos que falar desses? A gente não ignora, falando às vezes numa brincadeira, numa nota coberta. Uma hora eles vão passar pelo programa – mas é aquela famosa passada, rápida (risos). Nas nossas redes sociais também dá para ir cutucando. Hoje está tudo linkado. O cara que assiste o “Alto Falante” me segue no Facebook. Nas redes sociais, há o meu gosto pessoal. Não é o editor do programa. Lendo o meu post o cara vai entender porque não passamos clipes de Pabllo Vittar, pois ele não é cantor. Nem cantora (risos).
 
E o que os fãs acham disso?
Mesmo quando são fãs da noite para o dia, que depois já não acompanharão o artista, eles se lembram. Eu já fiz críticas ácidas ao Engenheiros do Hawaii, a última delas no Rock in Rio de 2001, mas teve fã que lembrou que eu era “o cara que metia o pau” na banda. Com os artistas, o que a gente teve foi um olhar meio torto. Um caso inusitado foi no (festival) Pop Rock Brasil, com O Surto, banda que teve uns dois hits. Eles chegaram a comentar que falamos mal. É uma coisa patética, pois falar bem ou falar mal é o nosso papel, seja Madonna ou O Surto. A crítica não está aí para agradar todo mundo. Do contrário, é release. A gente já teve um jornalismo mais crítico. Se não tivermos cuidado, vamos caminhar para um jornalismo de release. Hoje os festivais restringem ao máximo qualquer possibilidade de crítica ao evento e às bandas. Isso vai ficando cada vez pior, a ponto de a gente querer desistir de cobrir. A gente teve, por exemplo, o credenciamento negado no último Rock n’Rio, mas deram para um blog de celebridade. Por tudo isso, fazer um programa como o “Alto Falante” tem sido muito difícil.
 
Existe também uma pressão interna?
As TVs públicas são estatais de alguma maneira. E sempre estiveram muito ligadas à questão política, muitas vezes à política partidária. Com essa polarização que tivemos recentemente, entre PSDB e PT, até um programa como o “Alto Falante” vai sofrendo uma pressão. Isso chegará de alguma forma, com perda de estrutura, porque ou estão fazendo uma coisa maior para atender um pedido do governo, ou um diretor que chega e muda a programação. Isso é muito novo, em classificar as pessoas como petralhas ou coxinhas. Querem enquadrá-lo em uma coisa ou outra, não aceitando que você pode discordar de várias coisas de um segmento e outro. A posição de centro vai se perdendo nessa história. E, no nosso caso, estamos numa emissora ligada ao governo, que tem um olhar para o jornalismo, que pode ser chapa branca. Nestes 20 anos, a gente viu de tudo, como um diretor que chega e dá tudo para um programa, que passa a ser o novo queridinho da casa. Nesta hora, não tem pesquisas aprofundadas de audiência, caindo numa fogueira de vaidades.