Andar pelas ruas do Santa Efigênia e se deparar com um cartaz, placa, piso de cerâmica ou outras intervenções que contem sua história, a de algum vizinho conhecido ou do próprio bairro. O projeto Circunvizinhança começa a tomar corpo esta semana. Na abertura, sábado, o público poderá conferir parte do trabalho, além de obras literárias e artes visuais no ateliê ESPAI.

A exposição faz parte do “Crônicas Visuais: Mostra & Intervenções”, resultado da residência artística de Nydia Negromonte, Flávia Péret, Ricardo Portilho, Roberto Freitas e Ricardo Burgarelli. Ao longo da semana que vem, o quinteto conduzirá visitas guiadas no ateliê para apresentar o Circunvizinhança.

A iniciativa será catalogada para fornecer um mapa das atrações na região do Santa Efigênia. O embrião do projeto Circunvizinhança surgiu em 2014, quando Nydia Negromonte e Marcelo Drummond instalaram ateliê numa casa construída em 1926, na rua Tenente Anastácio de Moura, nome dado ao pai de uma das atuais moradoras, dona Elza de Moura, educadora de 105 anos de idade que publicou livros de ciência nas décadas de 1950 e 1960. 

SANTA EFIGÊNIA

Antiga rua rio das Velhas, a atual rua Tenente Anastácio de Moura foi o ponto de partida do projeto


Diante da percepção da riqueza de histórias na centenária região, os artistas decidiram se embrenhar pelo chamado baixo Santa Efigênia para mapear histórias da parte situada fora da avenida do Contorno. O projeto foi aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura em 2017 e começou a ser posto em prático em março deste ano. “Existe um Santa Efigênia dentro da Contorno e outro distinto fora”, enfatiza Nydia Negromonte. 

Ao lado de um cartógrafo, a dupla delimitou uma área de pouco mais de 1km², circundada ainda pelas avenidas dos Andradas e Mem de Sá, além da rua Juiz da Costa Val. Cada artista teve uma área de dimensões similares, sempre tendo a avenida do Contorno como ponto de partida e com um tema na cabeça. “O que fazemos é uma devolução de um olhar sensível de cinco artistas transformando informações concretas em artes”, explica Nydia, que sempre focou o resultado em iniciativas que convidassem moradores locais a participar do processo. “Estamos cansados de, na arte contemporânea, sempre falarmos com o mesmo público”.

Os limites geográficos se esvaíram durante o processo de descoberta do bairro, no entanto. É o que explica a escritora Flávia Péret. “Nas minhas andanças fui conhecendo mulheres notórias e anônimas, cheguei a uma rede de moradoras, então uma indicava outra. Não deu para ficar restrito a essa área. Acho que isso ocorreu um pouco com cada artista”, conta a escritora, que teve como enfoque a história de mulheres da região. “É um bairro muito masculino, basta ver o nome das ruas e as homenagens aos militares. Portanto, quis trazer essa perspectiva das mulheres dali”. 

Flávia Péret promoveu uma oficina de escrita para moradoras do bairro, que contaram suas histórias em um livro distribuído pela região. Algumas personagens também terão cartazes som suas fotos e uma pequena biografia afixados pelas ruas do Santa Efigênia, como Ana Barbosa, representante dos moradores da Vila Ponta Porã, a matriarca de quilombos urbanos Mãe Efigênia. 

Legado militar e de colônias agrícolas moldou formação do Santa Efigênia desde o século 19

O enfoque da serigrafia e outras intervenções plásticas de Ricardo Burgarelli foi sobre momentos da ditadura militar e da história de formação e resistência das vilas e favelas da região; o artista Ricardo Portilho retrata o arquivo de cartões de visitas da Tipografia Mathias, uma das mais antigas da cidade; Roberto Freitas, por sua vez, investigou a questão e os efeitos dos rios canalizados da região, um aspecto ambiental que também perpassa o trabalho de Nydia Negromonte. 

A artista plástica pesquisou árvores frutíferas em sua rota. “Não trabalhamos com nenhuma revelação ou informação nova. O que fazemos é mais uma devolução de um olhar sensível de cinco artistas transformando informações concretas em artes”, define. 

Boa parte do bairro que nasceu como jardim agrícola da cidade sucumbiu à urbanização. “Há dois processos de ocupação do Santa Efigênia, a criação agrícola da então colônia Bias Fortes, em boa parte formada por imigrantes que o governo de Minas queria que cultivasse aquelas terras, mas que depois acabaram trabalhando na construção civil e outros trabalhos urbanos, simultaneamente à instalação das famílias dos militares transferidos de Ouro Preto para a nova capital”, recapitula Tito Flávio Aguiar, historiador e professor de Arquitetura e Urbanismo da Ufop. O quartel militar explica, inclusive, o nome do bairro, já que Santa Efigênia é a padroeira dos militares.

“O planejamento inicial de Aarão Reis não previa a ocupação daquela área. A ideia era partir da Afonso Pena até a Araguaia (hoje Francisco Sales), mas é possível que a rua Niquelina fosse a estrada de acesso a Sabará, núcleo urbano mais significativo no momento”, frisa. 

Serviço:

Abertura sábado, de 10h às 17h. Visita guiada (11 a 17/08), às 15h, no Ateliê ESPAI (rua Tenente Anastácio de Moura, 683 - Santa Efigênia). É grátis

 

Contornos do ‘baixo Santa Efigênia'Clique para ampliar