Museu e favela. Para muitos, universos distantes. No entanto, já há algum tempo as instituições museológicas deixaram de significar apenas espaços no qual o olhar era, digamos assim, “privilegiado”. E novos espaços culturais foram se proliferando, com o norte voltado para o futuro.

Pautados nessa ideia, moradores e lideranças do aglomerado Santa Lúcia, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, estão perto de tornar realidade um antigo sonho, o de criar o Museu de Quilombos e Favelas Urbanos (Muquifu), para resgatar a história desse lugar e preservar as atividades culturais ali existentes.

Memória

Inspirado nos museus comunitários da Maré e do Cantagalo/Pavão Pavãozi-nho, do Rio, o Muquifu pretende ser um museu a céu aberto, etnográfico, histórico e artístico.

“Há tempos realizamos ações para promulgar a paz no aglomerado. Daí, começamos discutir a questão da memória do lugar, e surgiu a necessidade de ter um espaço para guardar tudo que é produzido pelos moradores e por pessoas ‘de fora’, como teses de mestrado, doutorado e fotos do espaço”, conta Mauro Luiz da Silva, curador do Muquifu.

Resgate

A gestão do Muquifu está sob a responsabilidade da comissão do Quilombo, que organiza as três semanas de “Paz e Cidadania”, que acontece anualmente no Morro do Papagaio, como é conhecido o aglomerado Santa Lúcia.

Em dezembro de 2012 foi inaugurado o Memorial do Quilombo, primeiro núcleo do Muquifu. Ali é catalogado e arquivado o material recebido para o museu.

Discussão

“Estamos recolhendo o material produzido nos eventos e resgatando registros dos grupos de congado, teatro e música do aglomerado, além de teses de mestrado, doutorado e fotografias. Mais do que resgatar a memória, o Muquifu traz a discussão entre o que é uma favela e o espaço de liberdade e criação”, diz Mauro.

A ideia é contar a história da formação do aglomerado, que coincide com a criação da capital mineira. “Os moradores da comunidade vieram para construir BH”, afirma.

Contar a origem do congado, da arte negra, da dança e as comidas típicas da comunidade também estão contemplados.

Projeto

Uma casa de dois andares, situada no Beco Santa Inês, foi escolhida para ser o “aparelho cultural” do Papagaio.

O projeto, de Sylvio Podestá, propõe um prédio de três andares com biblioteca, sala de exposições, cineclube, cafeteria e uma cozinha (para cursos de culinária).

“Discutir comunidade não é fácil, mas propus uma conversa com os envolvidos a partir de um desenho inicial, que está em aberto. Queremos que seja um museu convidativo, que as pessoas não tenham medo de entrar”, diz Podestá. “Filosoficamente ele se aproxima do Museu Abílio Barreto. Não será um museu morto, e sim para valorizar o que o morro tem”.