Quem não teve a oportunidade de assistir a segunda temporada da premiada série americana Atlanta tem agora uma segunda chance. Desde a última sexta, a série está disponível no catálogo da Netflix. Com isso, dá para acompanhar a sequência – ou conhecer – o trabalho do multifacetado Donald Glover, criador, produtor e um dos protagonistas da série.

Não faltam motivos a favor da produção encabeçada por Glover. Logo na temporada de estreia, “Atlanta” foi premiada em duas categorias do Globo de Ouro, em 2017. Rendeu também um Emmy a Donald Glover – primeiro prêmio de melhor diretor de comédia dado a um homem negro na história da premiação. Pela segunda temporada, mais prêmios: mais um Globo de Ouro para Glover, este conquistado no início do ano.

Para o jornalista e rapper Roger Deff, o reconhecimento da série é fundamental. “É importante ainda mais pelo fato de ser escrita pelo Donald Glover. É algo semelhante ao que vimos com o filme ‘Pantera Negra’. Não é só o caso de ter protagonistas negros, mas também de ter negros na produção. É um lugar de fala importante, que foge de uma representação estereotipada. Fala de quem vive aquilo na primeira pessoa”, sublinha ele.

Apesar de retratar a situação de negros na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, a série traz reflexões importantes também para o público brasileiro. “São sempre as mesmas pessoas; é sempre o mesmo grupo social passando pela marginalização, pela falta de acesso a direitos”, observa. Deff vê na série também uma oportunidade de ver os EUA por outros olhos. “É bom para quebrar essa ideia de que os Estados Unidos são um país sem problemas. Temos vários outros aqui devido às nossas questões históricas, mas lá também. A série retrata a América que não é a do sonho americano. É a que tem problemas para conseguir emprego, a América de uma população que costuma ser negligenciada”, afirma.

Cenário

Para, Renan Lelis, editor-chefe do Poltrona Nerd, site especializado em séries, há um avanço na representação de negros no cinema e TV e também de questões que envolvem o fato de ser negro na sociedade. “Antes, as histórias, tanto no cinema quanto na TV, davam muita ênfase à escravidão e à marginalidade. Hoje, acompanhamos histórias onde os negros contam as suas versões, a sua realidade”, pontua ele, destacando, ainda, a importância das discussões levantadas, principalmente a do racismo. “A multiplicação de séries traz o debate, que precisa ser feito em todas as mídias, nas escolas, nas faculdades e no trabalho. As produções audiovisuais têm, muitas vezes, o papel de levantar as discussões ou, pelo menos, abrir aquele sinal de alerta”, pontua.

A presença de pessoas negras para além das telas, também é um fator importante. “Acho que na indústria cinematográfica, no audiovisual, os espaços precisam ser ocupados não apenas por atores e atrizes, mas também tem que existir pessoas na produção”, afirma, destacando a importância dessa presença. “Há outro aspecto, que é o fato de população negra se enxergar naquele lugar, em que, muitas vezes, a gente não se vê, e quando se vê, é num espaço marginalizado”, diz Deff.

 

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