Quando o navio em que estavam preparava-se para ancorar em Marselha, na França, em 1946, João Candido Portinari segurou a mão do pai e perguntou o que eram aquelas carcaças de navio e prédios a desmoronar que estavam à sua frente. "Isso é a guerra", respondeu o pai do menino, à época com sete anos de idade.

"E qual de nós poderia supor que o repúdio pela mesma guerra e o desejo pela paz mundial motivariam meu pai a criar sua mais importante obra?", comenta João, em entrevista do Rio de Janeiro, referindo-se aos gigantescos "Guerra" e "Paz" criados pelo paulistano Candido Portinari (1903-1962) na década de 1950.

E são esses mesmos painéis que pela primeira vez poderão ser vistos bem de perto pelo público mineiro. A partir de quarta-feira (9), até 24 de novembro, os murais estarão em Belo Horizonte para inaugurar com pompa merecida o Cine Theatro Brasil, na Praça 7.

Em obras desde 2006, o prédio hospedará em seus sete pavimentos (distribuídos em 8,3 mil metros quadrados) uma ode ao artista plástico paulistano, amigo de nomes como Carlos Drummond de Andrade, Juscelino Kubitschek, Guignard e Murilo Mendes.

"Será emocionante porque Minas também era um pouco terra de meu pai. Seus grandes amigos foram mineiros e foi aí que ele construiu outra importante obra (referindo-se aos painéis da Igreja da Pampulha). Agora os mineiros poderão ver de perto seu maior trabalho", comemora o filho do artista.

A coordenadora do projeto Portinari, Maria Duarte, lembra que esta é quarta vez que os painéis podem ser vistos pelo público no Brasil. "A primeira foi quando eles ficaram prontos, em 1956, e as outras duas a partir de 2010, quando as obras foram retiradas da sede da ONU, porque o prédio seria reformado. No entanto, será a primeira vez que os murais serão expostos fora do eixo Rio-São Paulo".

Rumo à Cidade luz

Depois de BH, a exposição segue para Paris, onde fica até maio. De lá, João tem o projeto de levar os murais ao Grand Central Terminal, em Manhattan, para só depois retornar a sede da ONU.

"Desembarcamos em 1946 em Marselha para inaugurar uma exposição de meu pai em Paris. Nela havia uma série chamada "Retirante" e aquelas imagens tocaram muito os franceses, que ainda carregavam cicatrizes abertas da Segunda Guerra. Vai ser bom voltar pra lá, mais uma vez, ao lado de meu pai".

Em tempo: Portinari criou "Guerra" e "Paz" para a sede da ONU a pedido do Governo brasileiro. Em 6 de setembro de 1957 os painéis foram inaugurados em Nova York, mas sem a presença do artista que, devido ao envolvimento com o Partido Comunista, teve seu visto negado.

Ana Botafogo e Milton na inauguração apenas para convidados

Nesta terça (8), mas apenas para convidados, o Cine Theatro Brasil será inaugurado com direito a espetáculo cênico-musical e apresentações de nomes como Ana Botafogo, Alex Neoral, Milton Nascimento, Hamilton de Holanda, Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e o Grupo Cobra Coral. No telão, vídeos históricos contarão a trajetória de Portinari na concepção de "Guerra" e "Paz", incluindo trecho de discurso do ex-presidente Juscelino Kubitschek e um poema de Carlos Drummond de Andrade.

O diretor da Associação Cine Theatro Brasil, Alberto Camisassa, ressalva que as obras de restauro conseguiram recuperar muito do que parecia estar perdido.

"Demorou, mas valeu a pena. Estamos entregando para a cidade um verdadeiro presente e estamos felizes que ele seja inaugurado com uma obra tão importante para o Brasil e para o mundo".

Ao todo, foram investidos R$ 53 milhões na restauração, sendo 55% via Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Vallourec e apoio da Usiminas e Banco Itaú, e 45% com recursos da Vallourec.


Serviço

"Guerra" e "Paz", de Candido Portinari no Cine Theatro Brasil (Praça Sete). Terça a domingo, das 9 às 19 horas. Sessões de hora em hora.