A Rede Minas deixará de ser apenas uma emissora pública para tomar a linha de frente do cinema mineiro, fazendo o mesmo papel que Spcine, empresa de audiovisual de São Paulo que cuida do desenvolvimento, financiamento e implementação de políticas e programas para o setor. Um papel inédito na história de 35 anos da emissora estatal.

Ao Hoje em Dia, o presidente da Empresa Mineira de Comunicação, Sérgio Rodrigo Reis, explica como será essa nova atribuição num momento em que a TV e a rádio Inconfidência consolidam a unificação das gestões. Três meses após assumir a cadeira de presidente, ele comemora os resultados, como o salto de audiência das duas instituições.

“É um salto que a gente conseguiu em muito pouco tempo, uma conquista histórica para Minas”, exulta Reis, ao comentar os programas da TV que estão sendo disputados por outras emissoras. “Há um ano a gente tinha um programa exibido nacionalmente, o ‘Alto Falante’. Esse número aumentou para 14. Isso chancela a nossa produção, que é reconhecida em todo país”, afirma. 

Como caminha a unificação da Rede Minas e da Rádio Inconfidência, a partir da criação da Empresa Mineira de Comunicação?
A EMC representa um desejo antigo do governo do Estado em formar uma empresa que pudesse agregar as demandas e a gestão destas duas instituições que são importantíssimas para a cultura em Minas Gerais, mas que estavam dispersas, cada uma com uma especificidade. Isso acaba criando uma complexidade na gestão, com duas instituições andando de forma paralela. Eu cheguei com esse processo de consolidação sendo inaugurado, já nomeado como presidente da EMC. Neste período de dois meses e meio a três meses, a gente iniciou o processo de operacio-nalização, com os marcos legais sendo feitos, além de um novo regimento interno, pactuado com os funcionários, os diretores que assumiram e o Conselho Administrativo. É burocracia? É, mas se você não olhar para a empresa e conseguir visualizar como ela vai funcionar, com todas as normativas, pode causar uma série de conflitos. Após estes marcos legais, extinguimos a maioria das diretorias e criamos novas. É um processo bastante complexo porque a gente teve que mudar a competência delas, o que irá provocar um profundo impacto no dia a dia da EMC. Se antes existia x diretores para Rede Minas e x diretores para a rádio, agora há um diretor com função ampla para as duas instituições.

A partir desta sinergia, como ficará a programação?
A gente teve que propor uma grade em função do contexto da pandemia. Como todos estão em casa, eu só pedi que a gente tivesse uma programação inspirada neste momento, mas levando entretenimento para quem está em casa. A gente criou um projeto chamado “Fora de Ordem”, estabelecendo uma linguagem para este instante que estamos vivendo. Pedi para que não ficassem presos à live, porque é um formato que estava começando a se desgastar. A intenção era apenas se apropriar da linguagem, com todo mundo podendo falar com qualquer pessoa do país. A padronização da imagem caiu por terra quando se passou a captar imagens da própria casa da pessoa. Isso abriu uma perspectiva enorme para se ampliar o conteúdo. Os programas todos voltaram, mas nesta nova lógica. Além disso, temos diariamente, entre 7h30 e 12h30, as teleaulas, que são geradas pela Rede Minas. É uma operação de guerra para, em parceria com a Secretaria de Estado da Educação, colocar no ar este serviço. A repercussão tem sido enorme, fazendo a Rede Minas alcançar uma audiência inédita. Estamos falando de milhares de estudantes espalhados por Minas Gerais que não só recebem o sinal analógico e digital, mas que também acompanham o conteúdo transmitido pela internet.

Qual é o número de espectadores?
Não posso falar de número de audiência porque não temos o Ibope assinado. Mas eu sei que, na primeira semana, a gente quase chegou perto da Globo. Depois se estabilizou e temos ficado entre SBT e Record no período da manhã. Já está trabalhando com a programação pós-pandemia. A nossa expectativa é virar a grade em outubro, com novidades em várias áreas. Fizemos uma parceria com a TV Cultura, para a entrada de programas deles em nossa grade, como os de Miguel Falabella e Bela Gil. E há também a perspectiva que nossos programas voltem ao formato normal, retornando ao estúdio, mas sem deixar de dialogar com as novas possibilidades que o mundo virtual trouxe.

O objetivo é dar maior espaço ao entretenimento?
Sim, serão programas que também irão abarcar os jovens. Nossa emissora é um pouco sisuda, com a parte da tarde voltada para o infantil e, à noite, um período de programas mais sérios. Sentimos falta do humor e do diálogo com a juventude. Vamos assim complementar a grade com atrações que possam focar uma faixa que a gente não conversava até então. Daremos uma refrescada nela e, a médio e longo prazos, estaremos exibindo produções audiovisuais inéditas.

“Em Minas Gerais, o cinema é um dos setores mais organizados da cultura, mas (os seus integrantes) se organizam em grupos. É preciso sair destas caixinhas e distensionar, para pensar o setor como um todo”

E a programação da Rádio Inconfidência? Haverá mudanças?
A Inconfidência é uma rádio que está em nosso coração, que faz parte da história de Minas Gerais. A expectativa nossa é fortalecer as possibilidades de utilização do veículo rádio, fazendo com que ela possa dialogar com outros meios para que fique cada vez mais dinâmica, dialogando com o nosso tempo. Os colaboradores têm respondido a isso de forma muito interessante. Mas é uma demanda que exige um diálogo maior, pois todos os colaboradores estão em casa. A maioria é de grupo de risco e não tem tanta facilidade tecnológica como as pessoas da TV. É interessante observar que a rádio dobrou de audiência nos últimos meses. Antes da chegada do diretor artístico Dênio Albertini, ela estava muito focada em programas com apresentadores e bate-papo. Boa parte da grade era ocupada por isso e a gente percebeu que estava um pouco excessivo no dia a dia, afastando o nosso público. O Dênio trouxe uma proposta de fomento da música e da cultura mineiras, com a rádio saltando de 5.570 ouvintes por minutos, em Belo Horizonte, no período de janeiro a março de 2019, para 10.140 entre maio e julho deste ano. Outra novidade é que a gente está com uma equipe de trabalho para registrar a rádio como patrimônio imaterial de Minas Gerais. 

E a Inconfidência AM vai mesmo acabar?
Ficou essa história de que poderia acabar, fruto de um erro de comunicação. A sinalização que estamos dando é o contrário, com o registro. O que vai acontecer é que deverá migrar para outras plataformas. Foge de vontades nossas, mas é uma questão nacional, com o 5G ocupando a faixa do AM. Pensar em linha de transmissão é bobagem. O que falei com os colaboradores é a importância da instituição para a cultura mineira e brasileira, independentemente do meio como é exibida. A quanto mais lugar chegar, melhor. Discutir o meio de transmissão é reduzir o que ela faz de relevante.

Organograma da EMC terá diretoria de promoção e desenvolvimento do audiovisual, que será ocupado por Mônica Trigo, secretária de Cultura de Paulínia, interior de São Paulo, entre 2013 e 2015

A Rede Minas passará a coordenar as políticas públicas do Estado para o audiovisual. Ela terá o mesmo papel da Spcine em São Paulo?
É isso mesmo. Quando eu cheguei, o Leônidas (Oliveira, secretário de Estado de Cultura e Turismo) me colocou esse desafio, de fomentar a promoção do patrimônio cultural e imaterial do Estado e dos destinos turísticos a partir do soft power que o audiovisual apresenta. Temos que lembrar que Tiradentes era uma antes da Globo e se tornou outra depois que aconteceram todas aquelas novelas e minisséries. Toda vez que acontece um filme ou algo que destaca um lugar, ele passa a fazer parte do imaginário das pessoas. A cadeia do turismo pode se apropriar disso. Hoje o audiovisual está dentro do Ministério do Turismo e as janelas de oportunidades são incríveis para que se possa dialogar com eles a partir desta perspectiva. A gente tem que imaginar que este é um tema muito amplo. Podemos fazer muitas coisas usando a criatividade. Temos tantos autores que representaram a paisagem cultural de Minas, como Guimarães Rosa, (Carlos) Drummond, Fernando Sabino e Murilo Rubião, cuja essência do mineiro está explicitada. Apresentamos um projeto ao Ministério, chamado Telas da História, e eles gostaram tanto que nos fizeram uma provocação: por que não fazer isso nacionalmente? Num espaço de dois meses, passamos a conversar com a Agência Nacional de Cinema, para formatar aqui um modelo que pudesse ser uma espécie de Spcine. Estamos na perspectiva de assinar um convênio neste mês, criando uma série de editais para além de toda a política pública já instituída. O BDMG será o banco de fomento do Sudeste, disponibilizando as linhas de crédito para o mercado audiovisual a juros bem interessantes. O Leônidas também conseguiu a liberação da ordem de R$ 40 milhões com o governo federal para as produções que estavam represadas. Nos últimos anos, as autoridades municipais colocavam dinheiro e o governo federal não fazia a parte dele. A médio prazo, nossa intenção é constituir dentro da EMC um fundo setorial do audiovisual, para operacionalizar recursos que por ventura cheguem diretamente às produções. Hoje a gente não tem essa garantia porque o Fundo Estadual Cultural é geral. A expectativa é de que, até o fim do ano, quando a Lei Estadual de Incentivo à Cultura passar por uma revisão na Assembleia Legislativa, a gente inclua essa pauta.