Após consultar a esposa sobre a compra de um presente, Rodrigo Tavares percebeu que uma rede social passou a mostrar insistentemente propagandas do produto que haviam acabado de mencionar. “Questão de dois minutos depois”, registra o gerente de projetos em tecnologia da informação.

Situações de manipulação de informações como estas são mais comuns do que a gente pensa, fazendo da nossa atenção o mais importante “ativo” das empresas de mídia digital. Esse é o tema do documentário “O Dilema das Redes”, disponível na Netflix e que vem suscitando um grande debate sobre o tempo gasto nas redes sociais. 

“Minha vontade é de ir para uma casinha no topo de uma serra e ficar quieto lá em cima”, brinca Tavares, tamanha é a sensação de perda de privacidade. Trabalhando com TI desde 2003, ele salienta que, em linhas gerais, o que o filme mostra não é novidade. “Tudo que se falou ali são coisas que vejo acontecendo no meu dia a dia”.

O que chamou a atenção dele no longa-metragem de Jeff Orlowski foi o fato de apresentarem depoimentos de pessoas que trabalharam em postos-chave nas chamadas “big techs”. “É uma produção muito didática, que traz fontes confiáveis que falam de algo que elas mesmos implementaram”, salienta.

Aspecto que foi o bastante para Tavares “cair na real” mais uma vez. Ele “deu uma limpa” nos contatos do Instagram, retirou aplicativo do Linkedin do celular e parou de seguir algumas pessoas no Twitter. “De vez em quando é bom vir alguém para dar um choque de realidade e fazer a gente repensar”, observa.

Entre uma das máximas citadas no filme por Tristan Harris, ex-designer do Google, é que, “se você não está pagando produto, então você é o produto”. Para estas empresas, quanto mais tempo passar nas redes sociais, melhor. Ao acessarem os nossos dados, elas conseguem dirigir com mais precisão o alvo da publicidade.

Big Brother
As “big techs” sabem desde os lugares que mais frequentamos, pelo sistema de geolocalização, até se estamos mais deprimidos ou felizes. O microfone do celular é também um “ouvido” para elas. “O microfone fica ativo para que possamos dar alguns comandos (de voz). E é óbvio que fazem uma coleta de informações”, afirma Tavares.

No documentário, Jeff Seibert, que trabalhou para o Twitter, confirma que “cada ação que você realiza é cuidadosamente monitorada e registrada”. Com este perfil psicológico, as empresas têm um caminho mais fácil para manipular gostos e compras, levando um usuário a adquirir um produto mesmo não sendo uma necessidade.

‘O Dilema das Redes” deixa bem claro o poder destas redes sociais na política, citando populistas de direita que teriam sido eleitos a partir do uso massivo de fake news, como o norte-americano Donald Trump e o brasileiro Jair Bolsonaro. O melhor a fazer, dizem os especialistas, é desplugar. Ou buscar uma casinha lá no alto da serra.

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 Um dos pontos negativos do filme de Jeff Orlowski é o grande numero de encenações, artifício narrativo que tem desagradado os analistas

Usuários também têm a sua parte de responsabilidade

Professor de Marketing Digitial na Faculdade Promove, Marcelo Sander aponta dois méritos em “O Dilema das Redes”. O primeiro é conseguir depoimentos não só de especialistas que enxergam de fora o mercado, mas de pessoas que realmente trabalham ou já trabalharam nele em posições de comando.

O outro mérito é ter se utilizado de dramaturgia para exemplificar os relatos, o que ajuda na compreensão, principalmente do público leigo. O problema do filme está, segundo ele, no fato de, em alguns momentos, mostrar os usuários como se fossem meros robôs guiados e não tivessem sua parte de responsabilidade.

“Assim como qualquer ferramenta, as redes sociais sozinhas não são capazes de fazer o mal. É o uso que fazemos, por exemplo, de uma faca, que vai dizer se ela será usada para cortar uma picanha ou para matar alguém. Nesse aspecto, o documentário peca ao não atribuir parte da responsabilidade aos próprios usuários”, assinala.

Sander registra que, embora os algoritmos das redes sejam programados para nos manter conectados, o que aparece ou não nas timelines é, em grande parte, ditado pelo nosso comportamento nas redes. “Não quer ver determinados conteúdos? Há várias formas de fazê-lo, de bloqueios à simples indiferença”, analisa.

Ele compara as redes sociais a um cassino, em que tudo é feito para nos manter o máximo de tempo possível interagindo, gerando o vício. “Como todo vício, há, claro, duas opções: ou parar de vez com o uso (como as drogas) ou se policiar para usar de forma saudável (como a comida). Toda ferramenta depende menos dela e mais do uso que você faz dela”.

Para ajudar a manter um uso mais equilibrado, Sander recomenda algumas contrapartidas. “Quer jogar um game no celular? Que tal um game didático? Quer assistir a vídeos no YouTube? Que tal vídeos que ensinem algo, que passem mensagens positivas, resenhas de livros ou filmes infantis, curiosidades ou temas escolares?”, sugere.

Pai de duas crianças, o professor de Marketing Digital sabe que não é fácil implementar essas limitações numa sociedade tão dependente da tecnologia. “É mais cômodo simplesmente entregar o celular para a criança para mantê-la entretida. É uma luta diária, mas que pode ser vencida com diálogo e confiança”, sublinha.