O Cine Theatro Brasil Vallourec mal tinha aberto as portas em 2013 quando passou por um grande teste durante as manifestações de junho. Bancos e lojas foram danificados em vários pontos de Belo Horizonte, sendo um deles a Praça 7, no coração da cidade, onde está localizado o centro cultural que completa hoje cinco anos de reinauguração.
 
“Não tivemos um arranhãozinho sequer. De lá para cá, várias paredes já foram pichadas em nosso entorno e o Cine Brasil não teve nada, nenhum rabisco”, ressalta Alberto Camisassa, à frente do espaço desde quando os painéis de “Guerra e Paz” saíram da sede da ONU para (re) abrir as atividades culturais de um dos pontos mais icônicos de BH.
 
Ficar ileso de pedras e sprays de tinta pode ser explicado, nas palavras do presidente, por um carinho especial que as pessoas – frequentadores e pedestres –nutrem pelo lugar. “Creio que a gente mudou um pouco o ar daquele quarteirão, pela maneira como enxergam o Cine Brasil”, analisa.
 
Um caminho que pode ser lido em uma palavra: pluralidade. “Não queremos ser a casa de uma coisa apenas. Aqui a gente tem balé, stand-up, teatro, buscando atender a todo mundo, a todo tipo de gosto. Essa ideia de não classificar o que é melhor ou pior torna a programação bem eclética, com muita atração que não teria outro lugar em BH”, observa Camisassa.
 
Antes de o prédio, tombado pelo patrimônio histórico, ter sido comprado pela Fundação Sidertube e receber investimento da ordem de R$ 57 milhões, o local ficou fechado por 15 anos – tendo encerrado naquele 1998 uma das mais belas histórias sobre os cinemas de ruas da cidade, iniciada em 1932 e lembrada por vários recordes de bilheterias.
 
Kubrick
Com o prédio rejuvenescido, o cinema deixou de ser o carro-chefe, mas é a sétima arte a escolhida para marcar as comemorações dos cinco anos de atividade, com a exibição a ficção científica “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, clássico de Stanley Kubrick que terá trilha sonora executada ao vivo pela Orquestra Opus e Arns Nova – Coral da UFMG.
 
Para Rafael Ciccarini, responsável pela exibição e pela curadoria de uma mostra que será dedicada a Kubrick em novembro, a ocasião não poderia ser mais propícia, já que estamos falando de outro aniversário – o filme foi lançado em 1968, ou seja, completa 50 anos em 2018. “É uma obra marco na trajetória do cineasta, historicamente e também na maneira como ele articula imagem e som”.
 
Kubrick começou a montar “2001” usando peças eruditas de que gostava e acabou se apegando a essa trilha, recusando o trabalho antes encomendado
 
Ex-coordenador do Cine Humberto Mauro, o curador assinala que, se ouvir as peças musicais de forma separada, elas não têm a mesma potência reflexiva quando juntas às imagens. “Essa junção nos leva a uma nova dimensão, de acordo com a visão de mundo de Kubrick, envolvendo questões existenciais, científicas e até religiosas”, comenta.
 
Manutenção
O prédio, de influência Art Déco, está exatamente como em 9 de outubro de 2013. “Cada parede, cada cantinho recebe a preocupação da gente. Nossa intenção é manter a qualidade, fazendo com que fique igual à casa da gente, sem deixar acumular para não estragar e depois ter que fazer uma grande reforma. Nosso tempo é gasto na manutenção e na agenda”, salienta Camisassa.
 
Em matéria de agenda, não há o que reclamar. “Hoje nosso maior problema é a falta de agenda para abrigar todos os espetáculos. No Teatro de Câmara, não temos vagas para os próximos quatro, cinco meses”, revela. Para ele, são elementos que ajudaram o Cine Brasil a ser lembrado novamente. “O que não é fácil, pois não depende apenas de dinheiro”.
 
SERVIÇO
Uma Odisseia no Cine Brasil – Aniversário de 5 anos.
Hoje, às 20h, no Cine Theatro Brasil Vallourec (Praça 7). 
Entrada: R$ 10 (meia, R$ 5).