GRAMADO – Novo trabalho do diretor Helvécio Ratton, “O Segredo dos Diamantes” curiosamente ganhou a sua primeira exibição na tela grande no Dia dos Pais, dentro da mostra competitiva do Festival de Cinema de Gramado. Essa coincidência é muito reveladora de uma das características que unem os filmes mineiros que investem no gênero infanto-juvenil: o valor à família.

Diferentemente da grande maioria das produções de Hollywood, que tem os pais como a representação da negação e da censura, no recém-lançado “O Menino no Espelho”, de Guilherme Fiúza, e em “O Segredo dos Diamantes” a família é um elemento importante na formação dos protagonistas mirins, claramente inspiradora de virtudes como boa educação e amor ao próximo.

Além de ser uma deliciosa aventura de caça ao tesouro, a produção de Ratton também pode ser resumida como a retribuição de um filho (Matheus Abreu) pelo carinho do pai, que sofre um grave acidente. A família não tem recursos financeiros para pagar a cirurgia e o jovem Angelo descobre uma maneira de salvá-lo ao, junto com dois amigos, tentar desvendar um mapa com diamantes escondidos.

Em “O Menino no Espelho”, a figura paterna tem uma forte presença, baseada em Seu Domingos, pai de Fernando Sabino, autor da história adaptada por Fiúza. Mesmo num longa como “O Menino Maluquinho” (dirigido por Ratton em 1995), que começa com a separação dos pais, a família é enaltecida através dos avós. O garoto é levado para o interior, visto como o lugar da preservação dos valores tradicionais.

Não é por acaso que os filmes citados se passam em cidades interioranas, em contraposição (ainda que não explícita) às profundas mudanças socioculturais das metrópoles. Lá no fundo o que “O Segredo dos Diamantes” trata é do resgate de um tempo em que o bem e o mal eram condições bem definidas, revestindo assim o longa de uma contagiante singeleza.

O tio interpretado por Rodolfo Vaz funciona como um interessante espelhamento do espectador adulto, que acompanha a situação de Angelo a partir de um olhar de cima, como o responsável na ausência dos pais, mas que logo se deixa ser criança novamente, lembrando-se das aventuras ao lado do irmão e participando como um quarto elemento das descobertas do trio de amigos.

Esse olhar saudoso e respeitoso é evidenciado na condução de Ratton, que não se preocupa em criar grandes estripulias na trama, deixando aquela atmosfera benigna e reconfortante nos dominar – fazendo da sala de cinema não uma válvula de escape para a adrenalina de crianças presas em apartamentos, e sim uma saudação a um tempo que não gostaríamos de ter perdido.

(*) O repórter viajou a convite da organização do Festival de Gramado