Aquela velha foto em preto e branco, já deteriorada pelo tempo, única imagem de um ente querido, ganha uma sobrevida nas mãos de Mestre Júlio, cearense de 75 anos e um dos poucos (talvez o único) a dominar uma técnica em vias de extinção: a fotopintura.

Muito utilizada no século passado, antes de as máquinas fotográficas se popularizarem, ela é uma das atrações da exposição “Deslimites da Memória”, que pode ser vista no Museu Mineiro. Idealizada pelo fotógrafo mineiro Cyro Almeida, a técnica recebe novos protagonistas.

Em conjunto com Mestre Júlio, ele concebeu uma mostra que mescla a técnica com modelos jovens que, possivelmente, só viram uma fotopintura nas paredes dos avós. “O conceito do trabalho é, em alguma medida, o resgate de uma técnica subjugada pelas tecnologias digitais”, afirma Almeida.

O fotógrafo define a exposição, que ficará em cartaz até 3 de maio, como um diálogo entre tempos. “A técnica é a mesma usada no século passado, mas os rostos são bastante atuais, a partir de jovens de 17 a 22 anos”, observa. O desejo é criar um “ruído”, já que a fotopintura hoje está associada a pessoas falecidas.

Se, antes, o fotógrafo recorria a fotos deterioradas como matriz para um trabalho de cor e retoque, inserindo gravadas e roupas e acessórios mais formais, agora os personagens fazem questão de estampar sua identidade, como piercings, tatuagens e cortes diferentes de cabelo.

“Eu mesmo fotografei estes jovens dos século 21, com procedimentos analógicos em preto e branco, e enviei o material para Mestre Júlio fazer sua criação. O resultado é muito interessante, ao vermos jovens com terno xadrez, gravata, lenço no bolso ou um vestido de renda”, destaca Almeida.

A busca por estes personagens se deu nas redes sociais. “Fui atrás de rostos que me chamassem a atenção, em dois sentidos. Um por seus traços físicos, deixando evidente a contemporaneidade. O outro foi pelo modo de se colocarem à frente das câmeras, mostrando um ar mais provocativo”.

Almeida conheceu Mestre Júlio em 2011, durante uma palestra em Belém. “Fiz questão de cumprimentá-lo ao final, deixando claro a minha admiração. Ele me deu um cartão e falou para eu visitá-lo quando fosse a Fortaleza. Dois meses depois, eu fui à casa dele, surgindo daí uma grande amizade”, lembra.

Para quem quiser conferir o trabalho de Mestre Júlio de perto, ele participará de um “ateliê aberto” na terça e na quarta, no Museu Mineiro. As fotopinturas serão feitas ao vivo, diante do público presente. Ele trabalhará sobre fotos já preparadas. “Não seria possível tirar as fotos na hora e revelá-las”.

SERVIÇO:
“Deslimites da Memória” – No Museu Mineiro (avenida João Pinheiro, 342). Terças, quartas e sextas, de 10h às 19h. Quintas, de 10h às 21h. Sábados e domingos, de 12h às 19h. Entrada franca.