Música, bom-humor, esperança e coragem: quatro poderosos estímulos para tempos de angústias e incertezas. Uma das principais cantoras e compositoras da música brasileira, Angela Ro Ro condensa de forma potente essas e outras qualidades. Aos 68 anos e em plena atividade, a artista carioca está entre as principais atrações da Mostra Cantautores, que neste ano chega à sua sétima edição. Voltado para a canção e organizado pelos mineiros Luiz Gabriel Lopes e Jennifer Souza, o festival acontece entre os dias 3 e 10 de novembro, no Cine Theatro Brasil Vallourec. A programação conta com 14 espetáculos inéditos, estando confirmados, ainda, nomes como Aline Frazão (Angola), Rafa Castro (MG) e Cátia de França (PB).

Em entrevista exclusiva para o Hoje em Dia, Ro Ro afirma que ficou honrada com o convite para apresentar-se em formato voz e piano. “Eu achei um barato. Vou pilotar o piano com todo o carinho. Não sou uma virtuosa, me censuro muito no executar. Mas as pessoas gostam de sofrer comigo no piano. Fica uma coisa sensível e crua”, diverte-se, em meio à risada característica que deu razão a seu apelido. “Fico muito emocionada em levar a minha obra. Mais que um repertório, é um cardápio de vida”, completa.

A carioca conta que vai executar canções que marcam seus quase 40 anos de trajetória, muitas delas registradas por outros importantes nomes da música brasileira. “Vou levar ‘Agito e Uso’, gravada pelas Frenéticas nos anos 70 e, depois, por Zélia Duncan e Simone; ‘Balada da Arrasada’, gravada por Ney Matogrosso; ‘Não Há Cabeça’, gravada pela Marina Lima; e ‘Gota de Sangue’, gravada por Maria Bethânia, um estouro na minha carreira de compositora. Lembro de gravar o piano e ver aquela mulher na minha frente, com aquele cabelão, aquele perfil de águia. Minha referência maior”, adianta.

“Vou tocar e cantar, também, ‘Me Acalmo Danando’, que a amada (e recém falecida) Angela Maria gravou no especial para a ‘TV Globo’, em 1980, um dos momentos mais emocionantes da minha carreira”, completa a artista, lembrando ainda seus sucessos “Amor Meu Grande Amor” e “Mares de Espanha”.

Segundo Ro Ro, o show não deve englobar seu mais recente álbum, “Selvagem” (2017). “É um disco mais pesadão, muito rock. Talvez eu faça uma canção dele apenas. Mas vou levar exemplares para vender na minha butique”, diz, aos risos. “O show tem de tudo. Jazz, suingue, baladas. Não sei bem colocar gênero em música. Me importa que o público saia feliz”.

'Não podemos perder nossas ideologias'

Sobre ser feliz em períodos políticos conturbados, Ro Ro dá dicas preciosas de quem já resistiu à ditadura militar e ao preconceito. “Não devemos ter medo, nem ficar acuado. Temos que lembrar os passos de progresso que demos até agora, sem recuar. O Brasil não é uma selva, uma terra de ninguém. É um país de suma importância social, econômica, cultural e política, que deve manter sua soberania, para que os direitos humanos sejam assegurados, para que a violência não impere”, sublinha.

“Nós lutamos, doando nosso sangue, para poder votar. Agora, se na hora de exercer esse direito, as pessoas optarem por quem sugere a intolerância, é um caminho da boçalidade que me foge à alçada. Aí é sanatório geral”.

Para a carioca, a arte serve também como um respiro de divertimento e esperança. “Quero enfocar a arte que traga alegria e emoção. Não para fugir da realidade, mas para ser o espelho de uma outra realidade. Um reflexo de ângulos mais otimistas, prazerosos e humanos”, defende. “Está acontecendo uma convulsão sociopolítica mundial, mas a gente não pode parar nossas vidas pessoais. Não podemos perder nossas ideologias e nossos atos em prol do bem-estar. Por nada”, finaliza.