Se nos campos o Brasil leva vantagem sobre os rivais hermanos, a bola fica quadrada quando o futebol vai para as telas de cinema. São poucos os filmes dignos de um desempenho campeão. Esse foi um dos motivos para o diretor Roberto Studart assumir uma preocupação extra na hora de formar o elenco de “O Último Jogo”, já disponível nas plataformas digitais.

“Alguns atores precisavam sim jogar bola, porque, do contrário, as filmagens seriam um inferno”, observa Studart. Com pouco tempo para filmar uma história complexa, de ares de realismo fantástico e recheada de personagens e locações, botar os  atores numa escolinha seria impossível. O que explica a utilização de elenco pouco conhecido do público.

“A integração que tivemos  foi espetacular. Viramos realmente uma grande família por alguns meses”, assinala. Além do domínio com a bola, o cast precisava ter características “estranhas”, como define o cineasta. “O elenco peculiar  é o ponto forte. Como estamos abordando um lugar fora do tempo, era importante trazer atores que dessem credibilidade à proposta”, explica.

Deprimidos com o eminente fechamento da fábrica que emprega boa parte da população de Belezura, localizada na fronteira com a Argentina, os habitantes tem no futebol uma forma de recuperar a autoestima, já que os vizinhos de Guapa não só não perderam a fonte de trabalho como também têm um retrospecto melhor com a bola nos pés.

“Uma coisa muito legal é que a gente foi filmar na serra gaúcha, em duas cidades muito pequenas que têm m campeonato de várzea forte. Não sabíamos disso. Nós trouxemos a própria comunidade local para fazer a figuração, para compor os times. E os caras nunca tinham visto uma câmera de cinema na vida. Foi fantástica essa troca com eles. Deram a alma pelo filme”, destaca Studart.

A história foi levemente inspirada no romance “El Fantasista”, do chileno Hernán Rivera Letelier. Apesar de aficcionado pelo livro, o realizador não via outra forma de adaptá-lo a não ser promovendo profundas transformações na narrativa. “Letelier  foi bem-sucedido ao construir um ambiente meio surreal, com uma coisa de fábula, só que era um livro com muitos personagens, que apareciam em uma, duas páginas e sumiam”, salienta.

Com uma trama contada a partir de fragmentos de memórias, Studart não conseguia enxergar um filme. “Mais aí, depois de alguns anos, tive a ideia de fazer uma adaptação mais livre e trazer o universo do livro, que se passava no deserto do Atacama, no Chile, para uma fronteira meio fictícia entre Brasil e Argentina. A gente pegava cinco personagens e transformava em um, além de criar outros”.

JOGO

História foi adaptada do romance “El Fantasista”, do chileno Hernán Rivera Letelier

Situação surreal resulta num filme "diferente das comédias brasileiras"

“O Último Jogo” não tem um protagonista. Toda a história está a serviço da trama surreal e da cidadezinha, que parece perdida no tempo. “(Esse cenário) foi uma invenção nossa, na verdade. Criamos um lugar meio irreal, atemporal, que tem telefone rotativo e celular e tablete”, aponta Studart.

O cineasta concorda que a situação está acima dos personagens. “É  o que faz dele um filme pouco diferente das comédias brasileiras, que traz aquela coisa mais escrachada, mais de piada. O nosso gira em torno de uma situação que é meio esquisita, mas que tem um sentido”, analisa.

“O Último Jogo” foi feito em coprodução com Argentina e Colômbia. “Trouxemos alguns atores de fora, mas nós aceitamos fazer isso porque a história permitia. Tinha tudo a ver com o universo do filme. No final, ficou uma coisa super natural”.

Apesar das mudanças realizadas no texto original de Letelier, a essência permaneceu. Especialmente a ironia em “construir uma trajetória para a história, criando uma expectativa dentro de você, e tudo vai para o saco. Tem tudo a ver com o tipo de humor que gosto”, afirma.

Studart trabalha no Brasil, mas vive na ponte aérea entre São Paulo e Portugal, onde fixou residência com a família desde 2019. “Depois que Bolsonaro foi eleito, quisemos proporcionar aos filhos a oportunidade de morar fora. Já tive essa experiência de viver em outro país. Desta vez, o Bolsonaro deu a deixa para a gente fazer o gol”.