“Não acho que toda arte tem a obrigação de ser engajada, mas faço questão que a minha arte seja”, avisa o rapper mineiro Roger Deff. E é com essa premissa que ele lança o disco “Etnografia Suburbana”, o primeiro álbum solo da carreira, depois de duas décadas como integrante do grupo Julgamento, dos principais expoentes do rap mineiro.

Apesar do trabalho significativo com a banda, Deff conta que a ideia de produzir canções solo não é exatamente uma novidade. O desejo ganhou força com a pausa do grupo, em 2014.

“Pensei que esse seria um bom momento para desenvolver coisas minhas”, conta. E assim nasceram as oito faixas que compõem o trabalho “de estreia”. 

Apesar de colocar em cena questões que se relacionam com a vivência, cultura e também as mazelas sofridas pela população negra, Deff conta que as canções surgiram de forma despretensiosa, soltas, mas com certo fio condutor. 

“Quando comecei a produzir o disco, em 2015, não tinha ainda ideia do álbum. Foi ao juntar tudo que acabei chegando à conclusão de que o disco falava muito sobre esse lugar do subúrbio, da periferia e com uma narrativa construída a partir do ponto de vista do negro”, explica. 

Colocando as questões da negritude em evidência – mas “sem uma visão estritamente pessimista da vida”, ressalta o artista – o rapper destaca a importância das discussões levantadas pelo novo trabalho, principalmente no contexto sociopolítico atual do país. 

“Seria estranho viver isso tudo agora e permanecer em silêncio”, acredita.
Para ele, a música ainda desenvolve papel fundamental de educação e reflexão. “Tem uma capacidade de chegar nas pessoas que talvez o livro não tenha, principalmente no Brasil, país em que se lê tão pouco. A música tem o poder de reforçar pautas e trazê-las de uma forma que seja acessível e com um alcance ampliado”, observa.

“Ao mesmo tempo que coloco o dedo em muitas (questões) através do disco, não busco uma arte totalmente pessimista. Embora seja difícil não ter essa visão, estamos em um processo de transformação e, mesmo na situação que vivemos, o fato de eu conseguir falar sobre essas temáticas mostra que a luta de pessoas que vieram antes surtiu efeito”, avalia.

Apesar das vitórias reconhecidas, Deff ressalta que a luta é contínua. “Eu me lembro muito do Spike Lee. Ele deixa isso muito claro em os ‘Infiltrados no Klan’: não há final. É uma luta de forças que querem coisas diferentes, um lado que quer privilégio e outro que quer igualdade”, afirma o artista.

Sonoridade
Embora “Etnografia Suburbana” seja um disco de rap, Deff – acompanhado dos músicos Edgar Filho e Ricardo Cunha, Luiz Prestes, Michelle Oliveira, Celton Oliveira e DJ Flávio Machado – passeia por vários estilos, como funk, o soul, o maracatu, o jazz e o ska. 

“O rap tem muito disso. Ele sempre foi uma música que dialogou com várias outras coisas”, pontua. Além do diálogo com outros gêneros e o acompanhamento de uma banda, que torna o som mais orgânico, Deff ressalta o resultado das parcerias que recheiam o disco.

“É um disco que agrega muitas pessoas, tem um tom familiar nisso”, diz ele, que convida nomes como Richard Neves, Luciano Cuíca Play, Flávio Renegado e Ricardo HD, irmão de Deff que também divide com ele os vocais no Julgamento.