Mesmo com o sinal verde dos produtores de Milton Nascimento, Cleisson Vidal e Leonardo Carvalhosa viajaram para Nova York, para acompanhar a turnê do artista mineiro pelos Estados Unidos, em 2016, sem saber se ele permitiria gravar entrevistas. “Encaramos esse desafio, porque ele é muito reservado e seria muito importante ouvir quem é o Milton de sua própria boca, a respeito da sua visão de mundo, das coisas que lhe dão alegrias e entristecem e sobre como é acordar e seguir adiante”, registra Vidal.
 
Numa tarde fria na Big Apple, Bituca topou falar de sua intimidade, que se tornou um dos principais ingredientes da série documental que irá ao ar neste sábado, pela HBO. “Milton Nascimento – Intimidade e Poesia” representa um raro acesso, em primeira pessoa, ao lado mais humano de um dos criadores do Clube da Esquina. Em 20 dias de viagens, o biografado venceu a desconfiança da câmera, fazendo dela uma grande confidente. “A cada dia de filmagem, entendíamos que mais tínhamos a buscar”, observa o produtor mineiro Marcelo Braga.
 
Carvalhosa lembra que a impressão deles foi de que Milton começou “filmando-os” para depois se permitir mostrar por inteiro. “As conversas iniciais se basearam nas observações daquele cotidiano, do sujeito numa turnê, num local frio, em que as coisas são vistas pela janela do quarto e do avião. Ele se lembra das primeiras composições, que lhe remetem à situação em Nova York. A série ganha muito com isso, apresentando um tempo mais dilatado, que é o da observação e da fala”, analisa Carvalhosa.
 
Os realizadores não se contentaram em acompanhar a turnê americana e, na volta ao Brasil, levaram Bituca para o parque de Ibitipoca, na Zona da Mata, para aprofundar as relações do cantor de “Coração de Estudante” e “Travessia” com a natureza, marcante em várias de suas composições. 
“Milton está sempre falando em Minas. E filmar no Ibitipoca, com suas grutas, matas e cachoeiras, foi fundamental para criar esse elo com a terra”, salienta Braga.
 
À Flor da pele
Carvalhosa destaca que a intenção não era fazer uma espécie de reality show, colocando a câmera próxima do cantor, mas sim apostar na palavra de Bituca. Neste sentido, segundo ele, o roteiro feito por Lea Van Sten, é fundamental para dar a sensação de intimidade à flor da pele. “Ela consegue unir música e pensamento. As canções não são incluídas simplesmente. Estão ligadas à uma determinada ideia de Milton”.
 
Este vínculo vai se tornando cada vez mais forte ao longo da narrativa. No primeiro episódio, pontua Vidal, a turnê é o tema central. A partir do segundo capítulo, a fala do biografado ganha importância, culminando numa visão holística de Milton. No quesito musical, aparecem cerca de 30 canções – as que estão no setlist da turnê e outras que remetem às memórias e à percepção do que é amizade, amor, solidão e espiritualidade, temas que norteiam o documentário.
 
Serviço:
“Milton Nascimento – Intimidade e Poesia” – Exibição da série a partir de sábado, às 21h, no canal pago HBO.