Não são poucos os casos em que a realidade supera a ficção, no que toca a inverossimilhança dos fatos. A história do guru indiano Bhagwan Shree Rajneesh, conhecido também por Osho, é um desses exemplos. A trajetória do mestre espiritual e de seus asseclas – em especial, da secretária Ma Anand Sheela – é o fio condutor de “Wild Wild Country”, nova série documental da Netflix, que estreou em março deste ano e tem se tornado a nova sensação da plataforma.

Dividida em seis partes, a produção dirigida pelos irmãos Way (Chapman e Maclain) enfoca o período em que o movimento criado por Osho migra da Índia para uma região pacata do Oregon, nos Estados Unidos. No início dos anos 1980, o guru, Sheela e milhares de seguidores trajados de roupas vermelhas ocupam, sem qualquer aviso prévio, um rancho gigantesco próximo à cidade de Antelope, com população de cerca de 40 pessoas. 

No lugar, os sannyasins, como são chamados os discípulos, criam uma cidade de grandes proporções, com shopping, lagos, casas e tudo o mais. A partir daí, cria-se uma disputa com os habitantes da região, que recebem com maus olhos a chegada da “seita”, cuja a busca é pela elevação humana através da meditação, do contato com a natureza e do amor livre. 

Trunfos

Os eventos que se seguem beiram o surreal e prendem a atenção do espectador de forma hipnotizante. “Aconteceram mais loucuras nesse episódio histórico do que em muitas novelas daquelas em que a gente assiste falando ‘nossa, agora o novelista exagerou’”, afirma a publicitária Juliana Sampaio, 47, que assistiu toda a série em apenas dois dias. 

Para a mineira, a riqueza de imagens e a força dos personagens estão entre os principais trunfos. “É uma obra muito aberta. Não tem um narrador direcionando a leitura, não tem claramente um lado pelo qual você deve torcer. O genial da série é exatamente que ela não vem com nenhuma leitura pronta, mas acredita na inteligência de quem vê”, defende.

Recursos

Roteirista e professor da PUC-RJ, Rafael Leal ressalta os recursos utilizados na construção da narrativa de “Wild, Wild Country”. “São diversos elementos clássicos do documentário e da televisão, como steadycam e trilha sonrora envolvente, para colocar o espectador no processo emocional da série”, afirma, ressaltando o protagonismo de Sheela. 

“O Osho ocupa o lugar de sujeito, de quem se declara algo. O documentário é em torno dele, mas o personagem principal é Sheela. É com ela que o espectador se relaciona”, pontua Leal. “A realidade pode tudo, mas ficção precisa fazer sentido. Por isso, é tão interessante como é tratada a complexidade dela e suas curvas de transformação”, completa o especialista.

Contraponto

Mas o que será que os discípulos de Osho acharam da série? Dona do único centro de meditação certificado pelo indiano em Belo Horizonte, o Shantydeva, Cristina Winter Satto absorveu com espanto a história. “Me assustei muito em ver como uma pessoa que vivia perto de um mestre como Osho pode fazer o que Sheela fez. As informações que eu possuía não tinham nada a ver com aquilo. Ele foi perseguido por pregar a liberdade e confrontar o governo americano”, afirma a mineira, que esteve no Oregon em 1982 e pode dividir momentos espirituais com o mestre.

“Eu lia os livros, estudava a meditação. Fui uma das primeiras no Brasil a adotar a filosofia, a andar de vermelho”, conta Satto, ressaltando que o encontro com o guru a transformou para sempre. “Claro que eu me questionei sobre muita coisa, mas um mestre não é algo como uma roupa, que a gente simplesmente troca. É alguém que toca o coração e traz um ensinamento profundo”, sublinha.

Para a mineira, Sheela é a grande “Judas” da história. “Foi ela quem cometeu crimes, quem tentou destruir a imagem de Osho. Ela tem traços claros de psicopatia e se aproveitou do momento de silêncio do guru para fazer o que bem entendia”, defende. “Ele ficou traumatizado por tudo o que Sheela fez, porque confiava nela. Mas sua intenção era transformar as pessoas, e não fazer mal a ninguém”, conclui.