Foi com a história de Sam Gardner, um estudante de ensino médio diagnosticado com Síndrome de Asperger (uma forma leve de autismo) que parte em busca de uma namorada, que a série “Atypical” conquistou o público e, assim, chegou a segunda temporada, disponível desde a última semana na Netflix. Apesar de não ser a pioneira na representação de pessoas no espectro autista l – a primeira aconteceu em 1989 com o filme “Rain Man” – a produção traz contribuições importantes para a discussão e compreensão acerca do transtorno.

“O Sam é uma pessoa complexa, com vontades, desejos, problemas e questões que não podem ser explicadas apenas pelo autismo”, pontua o pesquisador Lucelmo Lacerda, que destaca como um dos méritos da série a apresentação de um personagem que vai além de seu diagnóstico.

Mas embora coloque em cena várias nuances do protagonista, “Atypical” não deixa de cumprir seu papel e coloca em pauta, de forma didática, as especificidades da Síndrome de Asperger e como o ela afeta a vida e o cotidiano de Gardner. “Isso contribui para a compreensão. Você tem uma ilustração de como a pessoa se sente e eles utilizam vários recursos para isso”, pontua Lacerda.

Uma característica importante de “Atypical”, uma comédia com pitadas de drama, é a leveza com trata o tema. “A série não adota discursos, mas há o interesse de discutir as coisas de forma prática, seja pelos olhos de Sam, seja através da visão atenta de sua família”, observa Marcos Petry, do canal “Diário de Um Autista” no YouTube.

A representatividade é outro fator destacado por Petry, que chama a atenção também para a produção “The Good Doctor”, da norte-americana ABC. “Os dois personagens são arquétipos contemporâneos que desafiam as circunstâncias excludentes. O público autista tem Sam Gardner e Shawn Murphy como referências para perseverar e desafiar muitos estigmas que a sociedade teima em propagar”, afirma

 

Estereótipos

Apesar da inegável contribuição trazida pela presença de personagens no espectro autista em produções audiovisuais, Lacerda ressalta que ainda há caminhos a serem percorridos. “Há uma constância na forma como esses indivíduos costumam ser apresentados, eles parecem meramente pessoas com autismo. São representações caricatas”, ressalta.

Além disso, o pesquisador ressalta a falta de diversidade na apresentação desses personagens. “Em todas as séries de TV, todos os personagens tem autismo leve. Isso representa apenas 30% das pessoas que tem autismo”, destaca. Para ele, o foco neste tipo de autismo corrobora para que estereótipos sejam reforçados. “Isso mantém a visão do autismo como sendo apenas aquelas pessoas super inteligentes. Mas temos outros tipos, há quem não consiga ir ao banheiro”, explica. “É preciso revelar toda a multiplicidade do espectro”, cobra o pesquisador.

Além da ficção: canal no YouTube discute as vivências de uma pessoa com autismo

"Quando eu descobri que era autista, há quase 20 anos, não havia acesso a informação, nem estudos sobre o Transtorno do Espectro Autista. Então as pessoas pouco sabiam sobre o potencial de um indivíduo com autismo e pairavam estigmas e limitações que a sociedade impunha”, lembra Marcos Petry. Para mudar esse cenário de pouca informação, ele resolveu dar início ao canal “Diário de Um Autista”, que mantêm no YouTube desde 2015.

A experiência, porém, não era totalmente nova. Antes do “Diário”, Petry, que também é músico, compartilhava canções em outro canal, que leva seu nome. “Com ele, percebi de que maneira a internet amplifica a troca de informações e como isso impacta no dia-a-dia das pessoas. Decidi que iria contribuir para a inclusão e a superação através dos mesmos princípios que eu uso no canal ‘Marcos Petry’”, explica. Se na empreitada musical, ele atende a pedidos feitos pelo público, no “Diário de Um Autista” os espectadores também tem um papel fundamental na produção do conteúdo. “Os comentários têm mantido viva a ideia do compartilhamento de informação”, destaca.

 

 

Assim, mantendo uma relação próxima com seus espectadores, Petry acompanha de perto os comentários que, muitas vezes, pautam as discussões feitas no canal. “Sinto que eles trazem visões muito pertinentes. Muitas pessoas se unem para conscientizar internautas maldosos ou que apresentem descompromisso com as discussões propostas”, conta.

Através do conteúdo divulgado no YouTube, Petry explora o cotidiano e as curiosidades sobre o Transtorno do Espectro Autista. “Busco sempre a discussão em torno do empoderamento do autista e da conscientização sobre os desafios que pessoas dentro do espectro enfrentam para viver seu dia-a-dia”, completa.

Estudos

A literatura é outra aliada na empreitada dele, que em 2018, tem divulgado seu novo livro “Memórias de Um Autista Por Ele Mesmo”. “Com um pé na biografia e outro na crônica, conto o processo de descobrimento do autismo e como o apoio de minha família e amigos fez a diferença em minha autonomia”, sublinha.

A atuação de Petry alcança também a educação formal. Palestrante, ele leva para escolas e universidades diversas pesquisas a respeito do processo de aprendizado do autista. “Recebi indicação para um curso de pós graduação internacional em Transtorno do Espectro Autista pelo Child Behavior Institute of Miami CBI”, comemora. “Escrevi uma carta apresentando meu canal e fui aceito para um programa de bolsas de estudos lá”, conta.

 

A ONDA AZUL

Livro aborda o autismo na infância

É pelos olhos da pequena Lalá, uma menina de 10 anos, que o público conhece a rotina de seu irmão mais novo Bernardo, um menino diagnosticado com autismo e que tem um jeito próprio de se comunicar. A história dos pequenos é o enredo de "Uma Onda Azul - Azul da Cor do Mar", livro escrito por  Maíra Alves, Adriano Machado, pais das crianças, e pela escritora Marismar Borém, que busca ajudar na compreensão sobre o Transtorno do Espectro Autista.

De forma leve, a obra mergulha na trajetória da menina, que com a ajuda dos pais, passa a perceber os sinais do irmão, a conviver com as diferenças e respeitar suas características. "Queremos contribuir para que pais, professores, educadores e profissionais da saúde na primeira infância possam observar mais atentamente os pequenos e detectar precocemente o Transtorno do Espectro Autista, possibilitando, assim, uma melhor qualidade de vida para a criança autista e sua família", sublinha o autor, ressaltando que, apesar do conteúdo infantil, a obra é válida para todas as idades. "Nossa intenção foi a de produzir um conteúdo que além de informar sobre o autismo, pudesse mostrar que uma adversidade ou característica especial pode ser uma grande oportunidade de ser melhor, de nos adaptarmos e buscar ser melhores na vida", explica.

 

SÉRIES SOBRE AUTISMO
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