Manhã de domingo. Você ouve sons de instrumentos de sopro e percussão e corre para a janela para ver o que está acontecendo. Vê, então, passar um grande número de pessoas vestidas de branco – algumas tocando instrumentos, outras simplesmente acompanhando o cortejo. Na trilha sonora, composições bem variadas, de diferentes épocas, mas certamente facilmente reconhecíveis pelo grande público.

Não são poucos os moradores de Belo Horizonte que já vivenciaram a cena acima. Mesmo sem saber, muitos já se depararam com um cortejo da Cultura Racional, que tem na música o principal vetor de divulgação do conhecimento amealhado desde a década de 1930 – e que se tornou famoso nacionalmente há exatos 40 anos, quando Tim Maia lançou o primeiro volume de seu célebre díptico “Tim Maia Racional”.

Banda

A banda da Cultura Racional é formada por mais de mil integrantes espalhados por várias cidades brasileiras. Na capital mineira, cerca de 160 pessoas se dedicam ao projeto, que, sempre aos domingos, percorre as ruas de um bairro de Belo Horizonte. Por sinal, no próximo, o grupo seguirá pelas ruas do bairro Serrano, na região Noroeste.

“Quando todo mundo estiver estudando a Cultura Racional e puder desenvolver a parte racional do cérebro, ninguém mais vai querer fazer mal a outra pessoa, ninguém vai querer destruir”, assegura Severino dos Reis, 65 anos, um dos principais divulgadores do conhecimento em Belo Horizonte.

Segundo ele, todos os envolvidos no universo da Cultura Racional – chamados de estudantes – compreendem a importância da divulgação e, por isso, participam com a banda ou com panfletagem.

Confira vídeo:

 

Panfletagem

Em cada panfleto há um pouco de informação sobre o assunto e um convite para que as pessoas conheçam o “Universo em Desencanto – Imunização Racional”, o famoso livro escrito por Manoel Jacintho Coelho em 1935.

O primeiro volume é o mais famoso de todos, mas o estudante da Cultura Racional não fica preso a apenas um livro, afinal, Manoel escreveu outros 1.008 até sua morte, em 1991. Há várias livrarias espalhadas pelo Brasil que são dedicadas exclusivamente a essas obras.

Para que a difusão seja a melhor possível, a banda toca em vários tipos de eventos cívicos. Participa anualmente da parada de 7 de Setembro, na avenida Afonso Pena, e logo segue em cortejo pelas ruas da cidade, encerrando o passeio no Mercado Central – que celebra seu aniversário no Dia da Independência. A banda também tem presença certa na abertura da Copa Itatiaia.

É possível conciliar o conhecimento com as religiões

Compreender o significado da Cultura Racional não tarefa das mais fáceis, mas uma coisa é fundamental ter em mente: “Cultura Racional não é religião, seita, filosofia ou doutrina. É uma sequência cultural”, diz Severino dos Reis, que descobriu esse conhecimento há 38 anos, quando era dono de uma loja de som e teve contato com músicos que divulgavam a obra de Manoel Jacintho.

Os estudantes garantem que a leitura dos volumes do “Universo em Desencanto” pode ser conciliada com qualquer religião ou doutrina. “Sou maçom, católico e estudante da Cultura Racional há 17 anos”, diz o corretor de imóveis Rubens Ribeiro Batista, que atua como coordenador do grupo em Belo Horizonte. “A maçonaria trabalha mais a parte material, enquanto a Cultura Racional atua na parte energética da pessoa. Encaixa direitinho”, garante.

Ele explica que a paz e a solidariedade são marcantes entre os estudantes. Os encontros e retiros são realizados com recursos e alimentos doados pela própria comunidade, que se divide entre as responsabilidades. “Essa união existe em qualquer lugar. E a gente não é contra nada, pode tomar sua cerveja e seu refri numa boa, mas com tudo dentro do limite. Nunca vi uma briga em um evento nosso”, diz Rubens.

Amor

Como em qualquer comunidade, aqui também é possível encontrar casos de quem se conheceu e se casou por conta dos encontros de estudantes da Cultura Racional.

É o caso da secretária escolar Luciana Maria da Silva, de 42 anos, que conheceu seu marido há 11 anos em um desses encontros. “Ficamos amigos e começamos a nos ver em todas as festividades da Cultura Racional, quando, então, fomos nos conhecendo melhor”, rememora.
Dedicação é intensa, mas encarada com naturalidade pela comunidade
O aposentado Noemi Porto, de 79 anos, teve seu primeiro contato com o “Universo em Desencanto” aos 44. Desde então, acredita ser importante o desenvolvimento da razão do homem, para que não haja mais guerras e destruição. “Esse canto não é o nosso, se fosse, seríamos eternos e felizes”, diz Noemi. “É preciso desenvolver o raciocínio para voltarmos para nosso mundo de origem”.

Dedicação compartilhada com João Saraiva, de 82 anos, que teve de deixar de lado seu trabalho com a Velha Guarda do Samba de BH para conseguir dar conta das demandas da Cultura Racional.

“A Velha Guarda tem alguns compromissos aos domingos, mas esse é um dia em que eu não posso. Todo domingo é de dedicação à Cultura Racional”.

A cultura permanece viva também com os mais jovens. Caso de Matheus de Almeida, de 21 anos, que teve contato com o conhecimento desde o nascimento.

“Meus amigos acham interessante, mas não entendem”, conta o rapaz, que pensa em fazer faculdade relativa a meio ambiente. “Para quem olha de fora, parece uma coisa muito nova, mas para quem vive, é algo muito natural”.

Há explicação para a escolha do branco para as vestes dos estudantes

Há volumes do “Universo em Desencanto” que tratam de como as cores teriam sido criadas pela natureza. O branco (a junção de todas as cores) é que mais se aproximaria da cor dos seres de luz do Mundo de Origem descrito por Manoel Jacintho e, por isso, é escolhido para definir as vestes dos estudantes. Uma uniformidade nas vestes é importante para a ideia de igualdade. “Aqui, há pessoas estudadas e semianalfabetas, há pessoas com muito dinheiro e outras com nenhum. Mas todos que estudam o livro passam a se ver como iguais”, explica Severino dos Reis, que já foi coordenador da comunidade em BH e atualmente comanda uma webrádio sobre o assunto.

O livro em si e suas palavras seriam fontes de uma energia especial

De acordo com estudantes, a Cultura Racional não tem a intenção de confrontar nenhuma religião, ciência ou tecnologia, justamente por entender que tudo isso é decorrente de práticas culturais. Quem quer compreender melhor é orientado a buscar conhecimento por meio da leitura dos volumes do “Universo em Desencanto” e em encontros. O livro tem papel central no processo: os estudantes acreditam que as palavras publicadas ali carregam uma energia especial.

"Universo em desencanto" estimula leitores à divulgação do conteúdo

O primeiro volume de “Universo em Desencanto” tem 373 páginas e explica conceitos básicos sobre o que seria o Mundo de Origem, o Racional Superior (o ser extraterreno que enviou o conhecimento para Manoel Jacintho), a Imunização Racional, as sequências culturais da humanidade entre outros. Na página 175, o autor deixa clara a orientação para que todos façam propaganda do processo de Imunização Racional. “É preciso que o vivente seja um fervoroso divulgador do que conhece, para salvar-se e salvar o próximo. O mérito do próprio vivente aumenta e tudo lhe cresce, tudo lhe reluz de bom e de bem para si”, escreve o autor. Interessados na obra podem procurar a Livraria Racional, localizada na avenida Augusto de Lima, 555, loja 61.

O próximo cortejo será no domingo (11), com concentração na rua Aracicaba, no bairro Serrano