Expoente do que há de mais inventivo na música brasileira contemporânea, o Passo Torto trouxe um novo olhar para o samba, tirando-o do lugar-comum dos clichês. Compositores e integrantes do grupo paulistano, a cantora Juçara Marçal e o multi-instrumentista Rodrigo uniram-se ao músico e produtor Gui Amabis para uma nova empreitada que também “entorta” ouvidos incautos. Trata-se do disco “Sambas do Absurdo”, que traz oito faixas inéditas, todas compostas por Campos, quando o artista lia “O Mito de Sisífio”, do franco-argelino Albert Camus.

Escrito em 1942, em meio à Segunda Guerra, o livro é um ensaio sobre o absurdo da própria existência. Fascinado pela história, Campos compôs os sambas e convidou o artista plástico e letrista Nuno Ramos para escrever as letras, que trazem pontadas assertivas. Versos como “É pau / Pedrada / No meu caminho / Um resto de toco / Um corpo sozinho”, que desconstrói “Águas de Março” em “Absurdo 2”, mostram a que veio o disco. 

Mas não são apenas as letras, entoadas pela forte voz de Marçal, que enfiam dedos em feridas abertas. Toda a sonoridade do disco foi construída pelo trio a fim de seguir, fielmente, a estética do absurdo. Assim, misturam-se ao cavaquinho e à guitarra de Campos efeitos eletrônicos advindos do teclado e do MPC pilotados por Amabis, criando atmosferas nem sempre fáceis.
 
Característica da turma do Passo Torto, o incômodo e o desagradável se fundem ao solar e ao melódico nas canções do disco. Isso pode ser visto na disparidade entre canções que remetem a sambas belos e contemplativos, como “Absurdo 1” e “Absurdo 2”, e músicas mais complexas e sombrias, como “Absurdo 3” e “Absurdo 6”, passando por momentos mais ritmados como “Absurdo 7”. 

Por fim, “Sambas do Absurdo” [TEXTO]é amarrado  pelo ambiente sinfônico-noise criado pelos efeitos de Amabis, o cavaco certeiro de Campos e o vozeirão de Marçal. Mais uma pérola de difícil degustação da trupe paulistana que vem chutando as receitas e revolucionando as fórmulas da música brasileira.