'Sentença de morte': Marcelo Gleiser vê Brasil retrógrado na ciência e na economia

Thiago Prata
@ThiagoPrata7
17/08/2020 às 18:18.
Atualizado em 27/10/2021 às 04:18
 (Eli Burakian/Divulgação)

(Eli Burakian/Divulgação)

Marcelo Gleiser é enfático: “Ciência define como vivemos hoje, e a pandemia só exacerbou isso”. O comentário precede um alerta. “A vida mudou, e graças à ciência podemos ao menos nos manter em contato e trocar informações rapidamente. O Brasil, infelizmente, não está apostando na ciência como deveria, se tem sonhos de se manter economicamente competitivo no futuro”, comenta o astrônomo e físico brasileiro, palestrante do encerramento do webinário “Conversas sobre Perguntas”, nesta terça-feira (18), às 17h, com transmissão no canal do YouTube da Casa Fiat de Cultura.

A observação de Gleiser é seguida de uma comparação. “Veja países como China, Coreia do Sul e Índia, e o quanto estamos ficando para trás como um país em que a economia é essencialmente de extrativismo agropecuário e mineral. Esse modelo econômico olha para trás e não para frente, e as futuras gerações vão pagar o preço por essa visão míope da realidade mundial”, afirma.

Professor titular de física e astronomia no Dartmouth College, nos Estados Unidos, e doutorado pelo King's College, de Londres, ele vai além em sua linha de pensamento que diz que a “ciência define hoje, mais do que nunca, o curso da economia e da história”.

“Não há como escapar disso. Então, políticos têm duas opções, ou abraçam esse fato e adotam uma postura de crescimento científico, como vemos no Japão, na Coreia, na China, nos Emirados (Árabes), em Israel, na Alemanha etc, ou fecham os olhos e adotam um obscurantismo meio que medieval”, pondera o pensador.

Segundo ele, não é a sociedade brasileira que não acredita na ciência. “A orientação política e econômica do Brasil é que me parece voltada a um olhar retrógrado”, diz. “Quantas marcas de alta tecnologia que usamos hoje são feitas e desenvolvidas no Brasil? Muito poucas. Tirando patentes na agropecuária, pouco é criado de novo no Brasil com capacidade de competir tecnologicamente lá fora. Isso, para mim, é uma sentença de morte para o futuro econômico do país. E a juventude, todo esse talento incrível, fica desperdiçada, com cortes de bolsas, educação de má qualidade etc. É triste”, lamenta.Eli Burakian/Divulgação

Conquistas e planos

Autor de mais de 100 artigos especializados e milhares de ensaios, publicados desde o New York Times a revistas infantis, o carioca Marcelo Gleiser é vencedor do Prêmio Jabuti, autor de 14 livros com traduções em 15 línguas e, em 2019, se tornou o primeiro latino-americano a vencer o Prêmio Templeton, que já foi dado a personalidades como Madre Teresa e Dalai Lama.

Quanto aos próximos passos: “Como cientista, físico teórico, estou pesquisando temas ligados à natureza do tempo, por um lado, e da vida, por outro. Como escritor, estou com três novos projetos de livro, incluindo um que faz uma análise da situação atual da ciência e da humanidade, e como podemos mudar nossa visão para ter a chance de sobreviver neste planeta nos próximos séculos. Como divulgador da ciência, criei um canal no YouTube onde venho oferecendo cursos gratuitos aos meus seguidores sobre ciência, filosofia e espiritualidade. Portanto, bem ocupado, como sempre”.

Webinário

Gestora cultural da Casa Fiat, Ana Vilela faz um balanço do webinário, uma aliança entre a Casa Fiat, o CCBB, o Memorial Minas Gerais Vale e o Museu das Minas e do Metal. “Criamos um grande time e um novo jeito de fazer e de transpor os impactos que afetaram o setor cultural. Abrimos, assim, um novo espaço para o debate de ideias, possibilitando ao público conversas enriquecedoras, que tragam novas percepções sobre o futuro”, declara.

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