Para quem só vê o uniforme e a capa branca no poster de “Shazam!” imaginando tratar-se de mais um grande super-herói saído dos quadrinhos e que se conectará a um universo de seres poderosos e responsáveis por salvar o planeta, é bom já ir logo avisando que o dono do figurino não passa de um garoto brincando de Superman.

Nas poucas linhas acima está a sinopse do filme dirigido pelo sueco David F. Sandberg, uma das principais estreias de hoje nos cinemas. Criado em 1939 e saído da galeria de personagens da DC Comics, Shazam está mais para o Deadpool da concorrente Marvel, em matéria de humor e referências aos próprios quadrinhos. 

A comparação, no entanto, para por aí, devido aos propósitos de cada um. “Deadpool” é, como o personagem de Ryan Reynolds gosta de dizer, “x-rated” (só para adultos), devido ao grau elevado de violência e cenas que com alusão ao sexo. “Shazam!” é um típico filme família, a exemplo das aventuras de fantasia da década de 1980.

A citação aos eighties é declarada, como podemos ver na cena em que o garoto Billy Batson – um órfão que recebe habilidades extraordinárias por conta de sua pureza – está numa loja de brinquedos e caminha sobre o piano gigante instalado no chão, reprisando a famosa sequência de “Quero Ser Grande”, com Tom Hanks.

É como se os roteiristas já se antecipassem às relações que seriam criadas com o longa-metragem de 1985. Afinal, estamos diante de um garoto como qualquer outro, com todas aquelas dificuldades da adolescência, que repentinamente acorda com um collant no corpo e a capacidade de carregar celulares só apontando o dedo.

Ingenuidade

Os problemas do protagonista de “Quero Ser Grande” para se adaptar à vida adulta, desde o aparecimento de pelos na virilha ao deslumbre com o dinheiro que recebe, são transportados para um órfão, que terá que descobrir, na marra, o que é carregar a missão de enfrentar um poderoso vilão.

A primeira metade de “Shazam!” custa a engrenar por conta da necessidade de já ter que apresentar informações sobre o herói e correr para que ele logo entre em cena, o que dá pouco tempo para o espectador se identificar com o adolescente, a princípio antipático pela maneira como não consegue sociabilizar.

A trama só ganha fôlego quando os irmãos adotivos de Batson participam mais ativamente, ajudando a costurar aquelas mensagens corriqueiras dos filmes-família: a compreensão das limitações e qualidades de cada um, a força a partir da união de todos e o entendimento do que é a verdadeira família.

Como nas aventuras de fantasia dos anos 80, os efeitos especiais não chamam tanta atenção – há, como não poderia deixar de haver, uma cena final com a grande batalha. O que fica é um estranho sabor de “Sessão da Tarde” em tela grande, num mundo menos complexo em que há ainda lugar para heróis puros e nada soturnos.