Há exatos 40 anos, Gilberto Gil fazia sua primeira viagem à Nigéria, para participar do FESTAC 77 (Festival Mundial de Arte e Cultura Negra). Na cidade de Lagos, reencontrou uma paisagem suburbana similar aos conjuntos habitacionais construídos na década de 1950, no Rio de Janeiro e em Salvador. As conexões sociais e culturais entre Brasil e África inspiraram, então, o cantor e compositor a gravar o seminal “Refavela”, lançado no mesmo ano. 

Segundo volume conceitual da trilogia “re” – completada por “Refazenda” (1975) e “Realce” (1979) –, o álbum atravessou gerações, encantando mentes e corações de artistas que nem eram nascidos em 1977. É o caso de Bem Gil, que decidiu juntar uma trupe de entusiastas do disco para celebrar o repertório – com a benção do pai. O resultado está no show Refavela 40, que chega a Belo Horizonte nesta sexta-feira 929), onde acontece no Grande Teatro do Palácio das Artes. 

No espetáculo, Gil, o filho e outros três intérpretes da nova geração entoam as faixas de “Refavela”. São eles: a cantora paulistana Céu; a pianista e cantora carioca, filha de Martinho da Vila, Maíra Freitas; e o cantor e compositor Moreno Veloso, filho de Caetano. “ Todos os envolvidos têm um gosto profundo por esse disco. Ouviram muito e foram influenciados no sentido artístico”, explica Bem Gil. 

Inspiração

Além dos intérpretes, a banda formada para o show – cuja base são os instrumentistas do Tono, banda liderada por Bem – também guarda intensa relação com o repertório de “Refavela”. “Tenho carinho grande por todos os discos do meu pai. Não escolhi ‘Refavela’ para esse projeto. A ideia partiu do disco e não o contrário”, explica Bem, contando que Céu, por exempo, sempre cantarola as canções do álbum nas turnês. 

A paulistana confirma. “Sempre que voltamos dos shows, temos o hábitode fazer uma playlist de cada um. E geralmente, na minha, tem alguma música de ‘Refavela’”, afirma Céu, contando que o baterista de sua banda, Thomas Harres “pescou” a conexão e sugeriu o nome da cantora para Bem Gil. “É um disco clássico, atemporal, que faz parte da minha discografia particular”, pontua.

Para Céu – que canta as músicas “Norte da Saudade” e “Nova Era” –, o álbum guarda detalhes que o tornam uma pérola da música nacional. “Gil tinha acabado de voltar da África, estava com ideias muito frescas.É um disco muito denso e profundo em todos os sentidos. Melódico, harmônico, rítmico, poético”.

Bem Gil ressalta que a ideia não é retomar o cenário de 40 anos atrás, mas trazê-lo para a atualidade, respeitando os arranjos mas, também, imprimindo a personalidade dos músicos envolvidos. “A ideia de fazer esse show surgiu pela força do disco. Mas, antes de tudo, a gente queria se divertir tocando esse repertório. Então, tudo é adpatado, não há a intenção de reproduzir fielmente, como um cover. Não forçamos a barra nesse sentido”, conta, ressaltando que Gil apoiou a ideia desde o início. “Ele adorou a ideia, porque não ouve esse repertório no palco há anos. Antes de sua participação, ele assiste o show todo, vibrando”.

Serviço: Refavela 40. Nesta sexta-feira (29), às 21h, no Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Os ingressos custam entre R$ 160 e R$ 240.