Há 11 anos o cineasta Karim Aïnouz - dono de filmografia premiada, com títulos como “Madame Satã”, “O Céu de Suely”, “Praia do Futuro” e “A Vida Invisível” - faz o mesmo percurso, entre Fortaleza e Berlim, na Alemanha. Um lado nômade tem que muita relação com o seu mais recente trabalho, “Aeroporto Central”, documentário que acaba ser disponibilizado no país em Video on Demand (VoD).
 
O filme registra o dia-a-dia de refugiados num abrigo alemão, montado num antigo aeroporto da capital alemã que serviu de base de operações nazistas da Alemanha comandada por Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Entre 2015, quando Aïnouz começou a filmar, e 2019, o local recebeu milhares de pessoas em busca de asilo, vindas de zonas de conflito como Síria, Afeganistão e Iraque.
 
Durante um ano, o cineasta cearense trafegou pelos sete hangares, criando relações com o passado hitlerista e ouvindo histórias de vida como a de Ibrahim, um estudante sírio de 18 anos passa por aulas de alemão e exames médicos na expectativa de algum dia ganhar um carimbo no passaporte para residir no país.
 
O documentário estreou mundialmente na Mostra Panorama do 68º Festival de Berlim, no passado, onde conquistou o prêmio da Anistia Internacional. Depois foi exibido em mais de 30 festivais internacionais incluindo CPH:DOX (Copenhague), Cinéma du Réel (Paris), Art of the Real (Nova York), Sheffield Doc Film Festival (Sheffield), AFI DOCS (Washington), Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, Festival Internacional de Cinema de Bogotá, Films From The South (Oslo) e Oslo Film Festival. No Brasil, devido à pandemia, não teve lançamento comercial nos cinemas.
 
No início do documentário, você conta um pouco da história do aeroporto Tempelhof, em Berlim, a partir de uma guia de turistas, mas as informações se detêm apenas no uso dele durante a Segunda Guerra Mundial e a posterior ocupação pelos soldados norte-americanos. Acredito que este recorte não seja por acaso, especialmente porque a última cena do filme é de um avião de guerra dos Estados Unidos daquela época.
Existem camadas históricas implícitas neste lugar. É importante entender que ali era um aeroporto de guerra, foi ocupado e, depois, virou um aeroporto comercial. Neste momento em que a guia começa a falar do funcionamento civil, ela sai de cena e a câmera vai para cima, mostrando o parque e as pistas de pouso desativadas. É uma ironia que fazemos, sobre aviões que não levantam mais voos, com o aeroporto, que antes era símbolo de um conflito, agora passando a ser a moradia de refugiados que estão saindo de uma situação de guerra.
 
Ainda sobre as cenas iniciais, elas contrastam com o restante do filme ao se abrir bem o plano e mostrar a grandeza arquitetônica do lugar, que era uma característica da estética nazista. Podemos também fazer uma analogia do aeroporto como um campo de concentração?
Sim, completamente. Embora os refugiados não estejam presos literalmente, podendo sair do abrigo, mas alguns aspectos remetem à Segunda Guerra, como o lugar de recrutamento.
 
Os depoimentos são principalmente de jovens sírios. Por que você não entrevistou mulheres? 
Aparecem pouquíssimas mulheres. Na verdade, três. Nós tentamos, mas geralmente os maridos pediam para que elas não fossem filmadas, assim como os filhos menores de idade. É uma questão própria da cultura muçulmana. Isso pode ser visto no filme, quando uma voluntária se aproxima de uma mulher e esta, vendo a câmera, recua e entra em seu alojamento, como se estivesse escondendo. Outra questão foi o hangar que filmei. São sete hangares e há uma divisão hierárquica, como aqueles para famílias, homens solteiros, refugiados de outras nacionalidades, como afegãos e iraquianos. Eu fiquei mais no hangar 7, onde tinham algumas famílias e homens solteiros da Síria, que vivenciava uma situação mais grave naquele momento. E me foquei neste espaço, para não ficar gastando muito tempo em negociações. Eu não podia chegar lá e abrir a câmera. Eles precisam me conhecer primeiramente. Ibrahim aparece mais porque vimos nele alguém que queria ser o dono da própria história, que chega cheio de esperança. Eu me identifiquei muito rapidamente com ele, lembrando-me quando era jovem.
 
A narrativa é dividida em meses, na verdade o espaço exata de um ano, em que o filme faz questão de mostrar as mudanças de estações, usadas possivelmente para falar da espera, da expectativa daqueles refugiados em ganharem visto na Alemanha. É isso que você buscava?
Eu cheguei no abrigo em dezembro de 2015. Era inverno lá. Havia várias tendas de jornalistas e achei muita estranha a forma como entravam nos hangares, já com a câmera aberta . Optamos por fazer um caminho diferente, tecendo uma relação mais humana, com o filme sendo feito no decorrer de um tempo mais longo. E é interessante associar o aeroporto, lugar onde geralmente as pessoas partem e chegam, como este local de espera, em que os refugiados não sabem o que vem pela frente. É muito parecido com o que estamos enfrentando hoje, com a quarentena e a pandemia. Não temos certeza sobre o que nos espera, um futuro ainda desconhecido. É interessante estarmos lançando o filme agora no Brasil, em que falamos dos horrores dos conflitos civis num momento em que o governo acena para um regime fascista e estimula o ódio às minorias.