Novas formas e significados para objetos obsoletos. Carcaças, arames, lixo e placas de eletrônicos geralmente são instrumentos descartados pela maior parte das pessoas, mas, ao cair nas mãos de artistas, ganham novo sentido e fim. Caio Machado e Rafael Casamenor são dois nomes em Belo Horizonte que têm feito um trabalho e tanto criando – a partir de objetos como os citados – esculturas, gravuras e outras artes de impressão. 
 
“Um dia estava voltando para casa e pisei em um emaranhado de arame. No caminho fui esticando e dobrando o mesmo até que percebi uma linha. Intuitivamente comecei a desenhar em linha contínua. Até que decidi comprar um rolo grande e dei início ao trabalho”, recorda Caio, de 44 anos.
 
O trabalho ao qual ele se refere são delicadas esculturas feitas com arame de onde nascem figuras como pescadores, pássaros, macacos e Dom Quixotes. Séries das quais ele já perdeu a conta de quantas fez, afinal, lá se vão 15 anos desde a primeira obra. “O arame é apenas um dos materiais que utilizo. Considero o trabalho com ele como desenho em linha contínua, mas com elementos de escultura. As pessoas o definem como arte contemporânea carregado de muita poesia”, diz.
 
Curiosidade
 
Para Casamenor, de 32 anos, a curiosidade é um elemento que faz parte do currículo há um bom tempo: “montar e desmontar equipamentos eletrônicos é uma paixão que desperta meu interesse desde moleque. Era um fascínio, em especial com as placas eletrônicas, eu queria entender para quê aquilo existia”, lembra, aos risos. 
 
O interesse pelas placas acabou, inevitavelmente, batendo à porta do artista na vida adulta. Na Escola de Belas Artes, na UFMG, ele decidiu despertar o afeto da infância durante o curso. “Foi quando passei a observar a arquitetura das placas como arquitetura que diz muito respeito ao nosso tempo”.
 
Hoje, quem vai até o ateliê onde Rafael e vários outros artistas trabalham (espaço conhecido como Casagravada) se surpreende ao encontrar peças de circuitos eletrônicos incorporados a materiais tradicionais, como o metal, o ferro, o latão e até o plástico. O diálogo dar-se a partir da gravura, da xilogravura e até serigrafia.
 
“Eu acredito que os materiais utilizados são os meios de um tempo. Se o que temos são novas tecnologias, é natural que o material usado se paute a partir delas. Sobretudo, acredito que se não fosse eu, fatalmente seria outro artista trabalhando com materiais como esses”.