Bryan Cranston não é nenhum garoto recém-saído do curso de atores. Prestes a completar 60 anos em março, ele entrou no radar dos produtores de cinema desde que viveu o professor de Química e traficante Walter White de “Breaking Bad”, uma das séries de maior sucesso da TV. Três anos após se despedir do personagem, esse americano nascido em Los Angeles figura na lista de indicados do Oscar por sua atuação em “Trumbo”, que estreia nesta quinta (28) nos cinemas.

Está no mesmo páreo de Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Michael Fassbender e Eddie Redmayne, nomes já consagrados na tela grande. Não deve ganhar a cobiçada estatueta, mas comprova a força (de audiência e prestígio) que as séries ganharam na última década, transformando-se numa ponte rápida para atores receberem propostas para papéis relevantes, sem precisarem “estagiar” por anos em produções policiais ou de terror “classe Z”, como aconteceu com vários profissionais saídos da TV.

Esse fenômeno já aconteceu no passado – um exemplo é Bruce Willis, que mal tinha saído de “A Gata e o Rato” quando estrelou, no fim dos anos 80, o detetive casca grossa John McClaine “Duro de Matar”, presente em qualquer lista dos 20 melhores filmes de ação de todos os tempos. Mas tem sido mais frequente agora que as séries viraram febre, na TV a cabo e na internet, com os atores emprestando a sua “grife” às produções de cinema, atraindo mais espectadores à sala escura.
 
Carisma
 
“O cinema americano, como tem cada vez mais se apropriado de filmes estrangeiros, está aproveitando o carisma de certos atores e atrizes que foram descobertos na televisão e que são suficientemente bons para brilharem na telona”, analisa o crítico Aílton Monteiro. Para ele, é muito saudável que os programas tenham conquistado o interesse de fãs de cinema: “Há atores que só ganharam o papel de suas vidas na TV”, registra, citando Claire Danes (“Homeland”) e Kiefer Sutherland (“24 Horas”).

Ressalta ainda que uma série é um formato que dá mais tempo para que um personagem se desenvolva na trama do que um filme. Aspecto que também é destacado pelo também crítico Lucas Salgado. “Séries como Breaking Bad, Mad Men e, um pouco antes, The Sopranos são marcos recentes da televisão americana e fazem muitos considerarem que estamos diante de uma Era de Ouro da TV, generalização que não deve ser levada a sério. A verdade é que a TV se tornou, sim, um espaço para construção de grandes personagens”, avalia.
 
Tempo decisivo
 
Lucas registra que figuras como Walter White e Tony Soprano (James Gandolfini) jamais poderiam ser desenvolvidas em um filme de duas horas. “Isso tem aberto caminho para atores que não se enquadrariam no star system de Hollywood ganharem os holofotes. Bryan Crranston tem mais de 40 anos de carreira, mas só veio a conquistar grandes papéis após o sucesso de ‘Breaking Bad’. O mesmo parece que vai acontecer com Jon Hamm. Após ‘Mad Men’, ele tem vários projetos no cinema”.

“Vivemos um momento curioso, em que o cinema quer astros da TV enquanto alguns nomes de sucesso do cinema querem oportunidades na TV, entre eles Kevin Spacey e Matthew McConaughey”, pondera Lucas.
 
‘Trumbo’ toca em ferida de Hollywood

Diretores de comédias escrachadas costumam não sair de seu nicho. Uma das exceções foi Jerry Zucker, que assinou o açucarado “Ghost: Do Outro Lado da Vida” (1990) após realizar filmes amalucados como “Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!” (1980) e “Top Secret! Superconfidencial” (1984). Jay Roach acaba de entrar nesse seleto grupo com “Trumbo”.

Realizador de duas franquias cômicas (“Austin Power”, com Mike Myers, e “Entrando numa Fria”, protagonizado por Bem Stiller), Roach foi corajoso ao assumir a condução de uma história que toca numa grande ferida em Hollywood, sobre a perseguição a artistas comunistas nas décadas de 40 e 50, período conhecido como “macarthismo”.

Dalton Trumbo entrou para a lista negra, exatamente quando estava no auge da carreira, como um dos roteiristas mais pagos da indústria. Rico e comunista, o que seria uma contradição no ponto de vista de vários de seus colegas, ele foi um dos poucos a conseguirem driblar a censura, assinando filmes como “A Princesa e o Plebeu” com pseudônimo.
 
Liberdade de expressão
 
Ao ganhar dois Oscar (por “A Princesa e o Plebeu” e “Arenas Sangrentas”), ele fez do Congresso motivo de chacota, com os congressistas não conseguindo suprimir a liberdade de expressão (prevista na Constituição americana). Mais do que isso: não abafando o talento. É justamente esse aspecto que Roach ressalta no filme.

Com direção sóbria, o cineasta não se aprofunda na política, mas emociona ao acompanhar essa luta, quase solitária, pelo direito de trabalhar, sem que se precise demover as suas ideologias, e questionando os falsos consensos que os americanos gostam de se apegar – um tema, aliás, muito presente entre os indicados ao Oscar, em filmes como “A Grande Aposta” e “Spotlight”.