Embora cumpra o propósito de conduzir a ação e o suspense, não é propriamente a luta de um médico para sair de uma casa habitada por pessoas estranhas o que mais interessa em “O Refúgio do Medo”, adaptação do conto “O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena”, de Edgar Allan Poe, lançada em DVD pela Califórnia.

A tentativa de escape é apenas um artifício para exibir outro tipo de fuga – a da realidade – a partir da discussão entre o que é loucura e normalidade, embaralhando os dois quando um médico recém-formado e idealista chega para trabalhar num manicômio que, como mostra os primeiros minutos de filme, recorre a métodos radicais.

A diferença é que esse procedimento, embora hoje se reconheça que era desumano, foi legitimado pela medicina da época. Somente essa questão já vale por nos levar a refletir que muitas de nossas certezas hoje estão sujeitas, depois, a ganhar data de validade, sem que nada possa se fazer para reparar injustiças do passado.

De médico e louco

Mas o texto original de um dos mestres do suspense não está interessado na passagem do tempo como um sinal de progresso ou mudança de comportamento. O escritor inglês promove essa discussão em “tempo real”, realizando uma troca: no lugar de médicos, o novo funcionário encontra loucos travestidos de doutores.

Não é por acaso que os verdadeiros passem a viver no subsolo, num patamar inferior, enquanto o novo chefe (Ben Kingsley) revoluciona a filosofia do local ao abolir os métodos violentos. Não se trata, porém, de uma simples vingança contra seus torturadores, como o filme de Brad Anderson também deixa claro.

O grande tema é o espelhamento, algo que George Orwell abordaria depois em “A Revolução dos Bichos”, em que o poder fascina tanto a ponto de, independentemente da classe, haver um momento em que um estará por cima e o outro embaixo. O filme aborda isso sem, em nenhum instante, falar de política ou coisa que o valha, apenas explorando as reações do homem.

O conto, publicado em 1845, também criticava a aristocracia da época, que escondia seus familiares em manicômios, muitas vezes por simplesmente não terem um comportamento padrão na sociedade