A professora, bailarina e coreógrafa Wilmára Marliére, durante quase 20 anos, enfrentou uma síndrome rara que afetou a coluna dela. Mas, nesta quinta-feira (10), no Grande Teatro do Sesc Palladium, ela sobe ao palco, na ponta dos pés, juntamente com o grupo de balé e de música formado por surdos e cegos que criou: o Projeto Céu e Terra. 
 
Wilmára, hoje com 47 anos, e seus alunos apresentam o espetáculo “Som, Silêncio, Luz, Escuridão”. “É um pouco do que eu passei”, diz ela. A bailarina é portadora da Síndrome de Arnold Chiari, uma doença genética não hereditária. Ela descobriu a síndrome ainda criança. 
 
As sequelas da doença a levaram para a mesa de cirurgia duas vezes, permanecendo por meses internada para se recuperar. “É a invaginação da coluna dentro da base do crânio”, explica ela, enquanto amarra a fita rosa de cetim da sapatilha no tornozelo. 
 
 
Três minutos e 10 segundos marcam superação
 
Em “Som, Silêncio, Luz, Escuridão”, do projeto Céu e Terra, a bailarina e coreógrafa Wilmára Marliére dançará durante três minutos e dez segundos “A Morte do Cisne”, solo consagrado pela russa Anna Pavlova (1881-1931). “Desde 1997 que não danço na ponta”, lembra a artista. “Faço a dança original, mas sem o salto”.
 
As oficinas do projeto são coordenadas por Meiry Isméria (balé) e Wéberty Marliére (violão) e acontecem no Colégio Arnaldo gratuitamente.
 
No Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1046). R$ 10 ou 1 kg de alimento não perecível
 
Assista o ensaio de Wilmára Marliére:
 
 
 
Projetos atraem público especial
 
O palco já está tomado por eles. Mas, no lado da plateia, em outras produções em Belo Horizonte, projetos como o “Ocupação 3.0 – De Lá pra Cá” e o “Teatro Acessível” fazem com que cegos e surdos também comecem marcar mais presença nos assentos no teatro. Nesta quinta-feira (10), às 16h, é a vez do espetáculo “Simbá, o Marujo”, da Trupe de Truões, de Uberlândia, dar o tom da inclusão na Funarte MG.
 
Isso porque a sessão oferecerá acessibilidade a pessoas com deficiência visual (com audiodescrição) e auditiva (linguagem de sinais). A atração infanto-juvenil integra a programação do “Ocupação 3.0 – De Lá pra Cá”, por meio da Cia. Drástica de Artes Cênicas, em parceria com a UMA Companhia.
 
Ator da Cia. Drástica, Carloman Bonfim alega que ainda há dificuldade para a produção desse tipo de evento no Brasil. No caso de “Simbá”, foi uma determinação definida no edital de ocupação do espaço.
“É a primeira vez que a gente produz um espetáculo com essa possibilidade. Com o resultado desta experiência poderemos fazer outras. É um público que o teatro precisa”, defende.
 
 
Eles estão chegando!
 
Se é de resultados que a indústria cultural vive, eles já se mostram bem positivos nos números do projeto “Teatro Acessível”. Em um único espetáculo, o projeto chegou a reunir de 20 a 30 cegos. A iniciativa organiza sessões no Rio de Janeiro e na capital mineira, sob patrocínio da Oi. “Hoje temos uma lista de divulgação bem grande, depois de três anos de projeto no Rio. Em Belo Horizonte, este público está em formação”, avisa.
 
A produtora diz que a equipe se esforça muito na divulgação direcionada dos espetáculos. Em BH, isso aconteceu com as peças “A Primeira Vista”, protagonizada pelas atrizes Drica Moraes e Mariana Lima, “#140 ou VÃO”, da Cia. Afeta, e “Maxilar Viril”, da Maldita Cia. de Investigação Teatral, ambas de Belo Horizonte. “Em cada dia, tivemos de 15 a 22 pessoas no Teatro Oi Futuro Klauss Viana, que tem cerca de 200 lugares”, contabiliza a coordenadora do projeto “Teatro Acessível”, a produtora cultural Lara Pozzobon.
 
Ela explica que as “traduções” são feitas por uma pessoa especialista em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), posicionada próxima do palco sob uma luz suave. No caso da audiodescrição, um locutor assiste a gravação da peça e faz um roteiro, que será ouvido pelo público em fones iguais aos de serviço de tradução simultânea. 
 
“Para a pessoa que é cega, ainda imprimimos o programa em braile”, acrescenta. Para pessoas surdas que não usam sinais, também há opção de se colocarem legenda, seja em uma TV de 50 polegadas, seja projetando em uma tela. “Mas o teatro tem que ser acessível fisicamente. Só fazemos o projeto quando isso já existe”, lembra ela.
 
Wilmára Marliére, do Projeto Céu e Terra, acompanha estes avanços e considera boa a estrutura dos teatros da capital. “Pelo menos os grandes, têm boas adaptações”, diz.
 
 
SAIBA MAIS: Teatros com acessibilidade
 
TEATRO SESIMINAS (rua Padre Marinho, 60,
Santa Efigênia): Doze lugares para cadeirantes. Acesso para portadores de deficiência.
 
CINE THEATRO BRASIL VALLOUREC (Praça 7, Centro): Dez espaços para cadeirantes na plateia.
 
TEATRO BRADESCO 
(rua da Bahia, 2244, Lourdes): São 602 poltronas, sendo seis para obesos e dez áreas para cadeirantes. Toaletes adaptados.
 
TEATRO FRANCISCO NUNES (av. Afonso Pena s/n, Parque Municipal): 532 lugares, sendo 11 para cadeirantes.
 
TEATRO MARÍLIA (av. Alfredo Balena, 586, Centro): 264 lugares, sendo 6 para cadeirantes.
 
FUNARTE MG (rua Januaria, 68, Floresta): 140 lugares, sendo 2 para obesos e 4 para cadeirantes.
 
PALÁCIO DAS ARTES - GRANDE TEATRO (av. Afonso Pena, 1537, Centro): 1.554 lugares, sendo 12 para cadeirantes.
 
GALPÃO CINE HORTO(rua Pitangui, 3613, Horto): 204 lugares, mais 4 lugares para cadeirantes.