Baseada em Philippe Minyana, autor tão em voga quanto a nova dramaturgia francesa, Júlia Branco compôs “Solo Para Coisas Quase Esquecidas”. Neste trabalho de conclusão de curso de artes cênicas pela UFMG, em 2010, já explorava a dança-teatro, as potências do movimento e uma abordagem poética. Um caminho contrário a “uma narrativa linear, contar historinha”.

Retoma esta estratégia em “Diário do Último Ano”, atração da sala multiuso do Sesc Palladium, só neste sábado e domingo. Dirigida por Gustavo Bones, ator do grupo Espanca!, a encenação busca inspiração mais constante no diário da portuguesa Florbela Espanca (1894/1930), de vida intensa, que ousou confrontar os códigos morais e matou-se ainda muito jovem e cheia de vida.

Além de debruçar-se sobre vida e obra da escritora que tanto admira, Júlia estabelece nexos entre mais escritoras e promove ligações entre a condição da mulher e a escrita feminina. Para isso, recolheu conteúdos em Clarice Lispector, Ana Cristina César e na inglesa Virgínia Woolf (de “Orlando”) - estas duas últimas, suicidas como Florbela.

Sem pretender ser conclusiva, Júlia avalia que as mulheres são mais misteriosas, dramáticas e inacessíveis que os homens. Embora, afirme, “o feminino nem sempre pertença exclusivamente às mulheres”. Por isso, procurou não retratá-las, mas difundir imagens, sensações, considerações mais sutis.

TEXTO E SENSAÇÕES

Apenas quatro dias antes de morrer, Florbela escreveu “não haver gestos novos nem palavras novas” no seu diário, publicado postumamente. Nele, a encenação encontrou mais subsídios. Também na famosa entrevista de Clarice à TV (reproduzida por Júlia em mimese) e no personagem sem chão de “As Horas”, de Virgínia Woolf. Para cerzir tantas referências, Gustavo teria sido fundamental. Estimulando Júlia a criar - a juntar “um texto, uma imagem, uma sensação”.

Candidato derrotado a obter recursos de montagem do Galpão Cine Horto como cena-espetáculo, “Diário do Último Ano” volta em março à casa onde estreou. E só por coincidência num dia 8, como hoje, quando Florbela Espanca se suicidou em Portugal.