Exibir a relação do cinema brasileiro com as expressões de origem africanas já estava na mira dos organizadores do forumdoc.bh (Festival do Filme Documentário e Etnográfico de Belo Horizonte) bem antes da questão racial voltar às manchetes.
 
“Toda essa cosmologia, essa ontologia da herança africana na cultura brasileira está fortemente presente ao longo da história do cinema brasileiro”, afirma Junia Torres, uma das organizadoras da 22ª edição, com início hoje, às 19h30, no Cine Humberto Mauro.
 
Ela não nega a importância política que o tema ganha no festival, “alinhado a formas de resistência tradicionais, fundamental para dar visibilidade às pessoas negras”. Não por acaso, os dois filmes escolhidos para a abertura (“Orí” e “Abá” ) integram a mostra temática.
 
Intitulada “Ebó Ejé – Cinema Brasileiro e Afro-religiões”, a mostra reúne 24 títulos de várias épocas e formatos. “Vamos desde obras pouco conhecidas dos anos 30 até trabalhos mais contemporâneos. A maioria é formada por documentários, mas há duas ficções também”.
 
Clássicos
Deste último gênero, são dois trabalhos assinados por realizadores importantes do cinema nacional: “Jubiabá” (1987), de Nelson Pereira dos Santos, que terá uma sessão comentada pelo pesquisador Hernani Heffner, e “Barravento” (1969), de Glauber Rocha.
 
A pesquisa para a seleção foi demorada e difícil, já que muitos filmes só dispõem de cópia em 35 milímetros. “São obras raras que conseguimos trazer de cinematecas e acervos particulares. Algumas delas representarão uma chance única de ver”.
 
Junia ressalta que fortalecer a questão da diversidade cultural, de expressões e grupos sociais, entre eles negros e indígenas, sempre fez parte da história do forumdoc.bh, constituindo o próprio conceito do festival ao longo de duas décadas. 
 
Por falar em sua trajetória, o evento, realizado com recursos de leis estadual e municipal, ao custo de R$ 200 mil, convive com uma ameaça de descontinuidade, devido aos novos ventos políticos. “Neste tempo todo que fazemos o festival, nunca sentimos tanta insegurança como agora”, lamenta.
 
Contemporâneos
O forumdoc.bh também apresentará as já tradicionais sessões dedicadas às produções recentes, brasileiras e internacionais, buscando trazer documentários mais urgentes, calcados no momento social. “São filmes que mobilizam diferentes grupos. Vários deles refletem a própria realização, ganhando um caráter metalinguístico ao registrar o próprio fazer”, destaca a organizadora. 
 
Outra sessão marcará a estreia em Belo Horizonte de quatro produções que têm relação com o Estado. Entre eles estão o premiado “Temporada”, de André Novais Oliveira, exibido no Festival de Locarno deste ano e vencedor do 51º Festival de Brasília; “Baixo Centro”, de Ewerton Belico e Samuel Marotta; e “Os Sonâmbulos”, de Tiago Mata Machado.
 
SERVIÇO
Forumdoc.bh – De hoje até 2 de dezembro. Veja programação completa em www.forumdoc.org.br