SÃO PAULO - A Terra e o reino de Asgard entraram em sintonia dessa vez. Um dos principais problemas do filme de estreia do super-herói Thor, em que o núcleo humano não estava bem desenvolvido, servindo apenas como mote para piadas, no roteiro da sequência que estreia nesta sexta-feira (1°) em centenas de cinemas do país põe esses dois mundos com o mesmo peso na estrutura narrativa.

Exibido em primeira mão para jornalistas de vários estados, na terça-feira (19), num shopping de São Paulo, "O Mundo Sombrio" usa uma receita muito conhecida, mas que geralmente dá certo em filmes de ficção científica, recuperando a teoria geocêntrica em que a Terra é o centro do universo. É aqui, como em "Os Vingadores", onde está a chave para o salvamento de nossa galáxia.

Para ampliar essa importância e trazer os cientistas vividos por Natalie Portman e Stellan Skargard para o centro da ação, o segundo "Thor" recorre a um alinhamento literal de planetas, o que faz com que os personagens possam se deslocar com maior facilidade entre os mundos. Na produção anterior, boa parte da trama, pelo menos a mais vital, se concentrava em Asgard, terra do herói nórdico.

Como os asgardianos são evoluídos e poderosos, os humanos eram como um brinquedo de criança no filme de 2011, só restando ao diretor Kenneth Branagh enaltecer as cenas de humor a partir das diferenças culturais. Essa não era muito a praia do realizador, que, como adaptador dos textos de Shakespeare para o cinema, concentrou sua atenção na transformação de Asgard numa mistura de "Hamlet" e "Othelo".

As traições e o sistema de governo calcado numa linhagem familiar, que Branagh fez questão de aproximar da monarquia inglesa, ainda alimentam a história, mas agora reforçaram outros aspectos para estabelecer pontos de identificação com a plateia que não apenas os jogos de poder. O roteiro sublinha a dor da perda e o questionamento da guerra como instrumento de paz.

Asgard surge, a princípio, como o país americano que usa da força e da ameaça para manter o mundo sobre controle. Essa política de governança está muito presente nos diálogos de Odin, pai de Thor, interpretado por Anthony Hopkins, sempre confiante em seu exército. Thor, por sua vez, entra em cena como um estrategista, apostando na inteligência para enfrentar um inimigo poderoso.

Veja o trailer:

 


Roteiro com vários "buracos" e ainda muita coisa sem explicação

A mudança pode não agradar os fãs dos quadrinhos, já que Thor sempre foi um herói inflamado e soberbo, mas se encaixa no desenvolvimento da trama. O que não quer dizer que roteiro não tenha buracos. O principal deles está justamente na maneira como o filme dirigido por Alan Taylor se esforça para dar importância aos personagens humanos, deixando muita coisa sem explicação.

Uma pergunta que não é respondida é a razão de Jane Foster (Natalie Portman) ser a escolhida para se tornar a hospedeira de uma força maligna. Também é de se indagar a facilidade como ela faz essa descoberta. Tirando esses aspectos pouco convincentes, a personagem não tem nenhuma grande cena que nos leve a pensar que ela possa ser mais do que a mocinha de enfeite.

Duas cenas

O humor também aparece em exagero, especialmente na aristocrática Asgard em cenas que nada acrescentam, como a transformação de Loki, irmão de Thor, em Capitão América – apenas um aperitivo para o próximo longa-metragem da Marvel, com a segunda parte das aventuras do super-soldado.

A comicidade funciona melhor quando Thor tenta se adequar aos costumes humanos, como pendurar seu martelo num cabideiro.

Como é praxe nos filmes da Marvel, os créditos finais adiantam situações das próximas continuações. Dessa vez, são duas cenas, uma logo após subirem os nomes dos atores e outra no fim. A última é completamente desnecessária, para não dizer "boba", mas a primeira apresenta um novo e interessante personagem, o Colecionador, que será vivido por Benício del Toro.