Desde 1940, a base do desenho animado não mudou: é sempre sobre um gato correndo atrás de um rato. Mas os desdobramentos da perseguição são tão criativos, inteligentes e provocativos que “Tom & Jerry” permanece um imenso sucesso em todas as gerações.

Mesmo com tantas cenas “politicamente incorretas” (a violência da animação é um eterno motivo de debate entre educadores), não deixa de estrelar diariamente nas manhãs do Cartoon Network (das 7h às 7h30) e SBT.

“Um dos motivos para tanto sucesso é a empatia que Jerry desperta nos espectadores por causa das habilidades engenhosas que tem, em contraponto à estupidez de Tom”, explica o diretor de animação Sávio Leite, lembrando que Comichão e Coçadinha, de “Os Simpsons”, são uma das homenagens à dupla.

Mas a contraposição não é tão matemática. “Talvez o grande sucesso venha pela inversão. Apesar de Jerry ser menor e consequentemente mais fraco que Tom, se dá bem em todas as aventuras. Mas, dependendo do episódio, sempre que há uma ameaça externa, os dois fazem de tudo para se livrar dessa situação, ou quando têm um inimigo em comum juntam as forças para derrotá-lo”, completa.

Vencedor sete vezes na categoria de melhor curta-metragem de animação do Oscar – todas nas décadas de 1940 e 50 –, “Tom & Jerry” foi criado pela genial dupla William Hanna e Joseph Barbera para a MGM. Inicialmente, os protagonistas eram chamados de Jasper e Jinx.

Em 1960, a série foi retomada pelo estúdio, contando com o diretor Gene Deitch. A produção era feita em Praga, de forma sigilosa, por conta do período de Guerra Fria. Em 1963, foi a vez de Chuck Jones assumir o desenho, produzindo 34 curtas-metragens – com ótimos momentos de sadismo e sarcasmo.

A partir dos anos 80, a série passou a ser editada e revista para ser exibida na televisão para o público infantil. Boa parte das animações antigas tiveram cenas cortadas. Nos desenhos mais novos – incluídos aí os longas-metragens feitos para TV e locação, desde 2002 –, a violência deixou de ser tão brutal.

Trilha

Um dos motivos do sucesso da série está na trilha sonora. Professor da disciplina de Trilha Sonora da Escola Livre de Cinema, Juliano Jubão costuma dedicar uma aula especialmente a “Tom & Jerry”. “Em se tratando de uma obra com raras intervenções de fala, a música tornou-se a responsável por inúmeras situações, desde um movimento simples como olhar para cima ou para baixo, até outras extremamente complexas, como a retratação de um sentimento ou humor”.

Segundo ele, isso fica mais claro ao assistir, pelo Youtube, à apresentação da John Wilson Orchestra tocando partituras de Scott Bradley, principal compositor da série nas décadas de 1940 e 50. “Sem as imagens, conseguimos ter uma percepção da genialidade dessa trilha, identificando claramente personagens, situações e reviravoltas”.