Um dos melhores momentos do filme “Um Lindo Dia na Vizinhança”, já em cartaz nos cinemas, acontece nos primeiros 20 minutos, quando deixa o espectador na dúvida sobre a dimensão real do que está vendo.
 
Ao mostrar uma cidade de maquete, em cores levemente saturadas, passando a um cenário falso e datado em que um senhor repentinamente começa a cantar olhando para nós, adentramos por um universo fantasioso. 
 
Há o mundo fake e confortável da TV, em que um apresentador de programa infantil (Tom Hanks, indicado ao Oscar) surge como exemplo de bom samaritano, e o do jornalismo sério que põe tudo em outra perspectiva.
 
Quando estes dois terrenos se chocam, a partir de um jornalista premiado que não aceita rever o pai de passado beberrão, a história caminha para uma mensagem edificante sobre a necessidade do perdão e do autoconhecimento.
 
Baseado num personagem real, o Senhor Rogers de Hanks é um livro de auto-ajuda ambulante. O filme frisa a todo momento este caráter benevolente, enquanto o repórter vira uma espécie de Scrooge dos contos de Charles Dickens.
 
Ele começa a enxergar passado, presente e futuro com outros olhos, com a meia hora final dedicada à transformação completa do personagem, sendo difícil para o público não deixar de se emocionar.
 
A quantidade de açúcar nesta equação poderia ser mais comedida, com o filme tendo mais chances em angariar outras indicações ao Oscar, se “Um Lindo Dia na Vizinhança” não deixasse perder de vista o universo fantasioso.
 
A necessidade de fazer de Rogers um homem real, na direção do jornalista que tenta desmascará-lo, encontrando alguma falha que fosse, torna o jornalista uma mera desculpa para que as lágrimas surjam com força ao final.
 
A diretora Marielle Heller se aproveita pouco do que o ambiente da TV pode oferecer, a não ser por uma breve cena em que o repórter está sonhando, misturando personagens do programa com fatos reais.
 
A atuação de Hanks, sem dúvida, contribui para que Rogers não caia na armadilha do excesso de bom-mocismo. Talvez por exibir uma certa vulnerabilidade em personagens assim, como já visto em Forrest Gump e Buzz Lightyear.