LOS ANGELES - Tom Hanks volta a encarnar um homem comum em uma circunstância extraordinária em "Capitão Phillips", um filme hiperrealista dirigido por Paul Greengrass e que conta a história do ataque a um navio mercante por piratas somalis há quatro anos.

O filme, baseado no livro autobiográfico de Richard Phillips, "A Captain's Duty" (O dever de um capitão), estreia sexta-feira nos Estados Unidos e em 8 de novembro no Brasil.

O capitão Richard Phillips navegava em um cargueiro americano ao longo das costas da Somália quando o barco foi abordado por piratas liderados por Muse (Barkhad Abdi).

Depois de invadir a ponte de comando, os criminosos tomaram Phillips como refém em um bote salva-vidas, o que desatou a sofisticada operação de resgate da Marinha americana que teve grande cobertura da imprensa em abril de 2009.

Greengrass, com tradição nos documentários, narra a história em formato de thriller com foco para a tensão entre Phillips e Muse, um desnutrido e violento ex-pescador.

"Os momentos de crise criam um balé de tensão que vai se sobrepondo", disse o cineasta à imprensa.

"Se a tensão é capturada sem sentimentalismos, você descobre o que é subjacente a ela: a humanidade e a compaixão".

Greengrass, indicado ao Oscar pelo filme "Voo United 93", conseguiu a participação na Marinha americana e 'prendeu' os atores em uma claustrofóbica réplica do bote salva-vidas.


"Meu medo era natural"

Fiel a seu estilo, o diretor britânico não permitiu que os atores se conhecessem antes de filmar o ataque a ponte de comando, para capitalizar o nervosismo dos quatro jovens de origen somali ao ver Tom Hanks pela primeira vez.

"Isto deu uma vantagem aos atores e à equipe. Mas também ajudou Tom (Hanks) porque não havia nenhum tipo de intimidade entre eles. Eram antagonistas naquele momento e isto é percebido na tela", afirmou o cineasta.

Ao recordar a cena, Hanks disse, entre risadas, que "havia terror verdadeiro nos olhos de todos os homens brancos que estavam a bordo quando (os "piratas") chegaram à ponte".

"Estes rapazes, particularmente Barkhad, transmitem algo que supera qualquer artificialidade", afirmou o ator, vencedor do Oscar por "Filadélfia" (1993) e "Forrest Gump" (1994).

"Estava muito assustado", recordou Barkhad Abdi, que tinha sete anos quando emigrou com a família para os Estados Unidos em 1992, um ano depois da explosão da guerra civil na Somália.

"Não havia visto Tom ainda e meu medo era todo natural".

"Foi o mais difícil para mim. Todo o filme se fundamentava nesta cena", disse à AFP o ex-motorista de limusines, que mudou de vida ao comparecer com amigos ao teste de elenco do filme em Minneapolis (Minnesota).


O protagonismo da Marinha americana

"Capitão Phillips" foi filmado no oceano, em um navio mercante verdadeiro com tripulação real. Na cena da abordagem, os atores efetivamente entram no barco no meio do mar, sem efeitos especiais.

A Marinha disponibilizou para o produtores o destróier porta-mísseis "USS Truxtun", a fragata "Halyburton" e uma nave de ataque anfíbia, incluindo uma equipe de oficiais especiais de elite Navy SEALS.

Neste contexto, Greengrass, que dirigiu dois filmes da saga "Bourne", deu muito espaço para o improviso. A frase "Eu sou o capitão agora", talvez a mais emblemática do filme, foi obra da espontaneidade de Abdi.

E a mulher que aparece no intenso final, no qual Hanks mostra todo seu brilhantismo, é uma verdadeira enfermeira do "Halyburton", recrutada na hora por Greengrass.

As vítimas da exigência de hiperrealismo foram os atores, que recordam sem nostalgia das claustrofóbicas cenas no bote salva-vidas fechado, onde os piratas levam Phillips como refém.

"Era um local muito incômodo, com cheiro horrível, o ar estava viciado, fazia calor e estávamos todos amontoados", contou Hanks.

"Paul criou um ambiente muito realista e não posso imaginar outra maneira de fazer o filme. Há formas talvez mais agradáveis, mas como atores, este pequeno espaço, quente e sem janelas, foi uma grande vantagem para nós".