Um disco de Tom Zé está sempre calcado em um conceito bem definido, nunca é só um apanhado de músicas. Ao menos, não até agora. De acordo com o próprio músico, o recém-lançado “Vira Lata na Via Láctea” é o primeiro, desde 1976, a não ser desenvolvido a partir de um assunto-tema. O que não quer dizer que não haja um ponto em comum entre as 14 faixas.

A construção do álbum teve início a partir do contato com o jornalista Marcus Preto, que pretende desenvolver uma biografia sobre Tom Zé. “A conversa foi ficando tão íntima, do ponto de vista da compreensão um do outro, que comecei a colocá-lo ‘dentro’ de tudo que era referente ao disco. Não sei mais que rumo tomou a biografia, mas o Marcus acabou virando diretor artístico do disco”, conta o irrequieto músico.

Foi Preto quem indicou alguns nomes bem interessantes da atual música independente para participações e parcerias – aqui estão Criolo, Silva, Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada), Tim Bernardes (O Terno), Trupe Chá de Boldo, Tatá Aeroplano, Kiko Dinucci e Rodrigo Campos. Um time que combina muito bem com a música “Geração Y”, parceria com Marcusso, e cheia de referências à cibercultura que abre o álbum.

Marcus Preto também foi a ponte para que dois grandes artistas da geração de Tom Zé fossem convidados para as gravações. Caetano Veloso é parceiro de composição e voz em “A Pequena Suburbana”, enquanto Milton Nascimento canta em “Pour Elis”, criação de Tom Zé sobre um texto que Fernando Faro escreveu um ano após a morte de Elis Regina (em 1982).

“Desde sempre vinha fazendo discos sobre um tema, quase sempre compunha sozinho. Tratava das várias maneiras de pensar sobre o mesmo assunto. Agora o processo foi bem diferente”, explica.

capelas irradiantes

Mas se na construção do álbum não havia uma temática central, Tom Zé logo tratou de buscar uma inspiração para o show derivado de “Vira Lata”. Encontrou “capelas irradiantes” – igrejas românicas do século 11, construídas em torno de uma edificação central, cada uma abrigando uma parte do culto religioso. Uma metáfora para a pluralidade do trabalho e uma direção para a construção cênica. “Ao dominar o assunto, me senti mais confiante para o show”, diz o artista. “Com o passar do tempo, fui me habituando a atuar no palco, mas preciso de certo controle para me deixar com flancos abertos”.

virada cultural

Essa preocupação temática que Tom Zé sempre emprega em seus shows ficou bem clara para quem assistiu à sua apresentação na “Virada Cultural de Belo Horizonte” – em plena rua Guaicurus, a mais famosa concentração de prostíbulos da capital. O artista criou uma música especialmente para a ocasião.
“Fui criado num mundo no qual a zona era frequentada por todos os rapazes. Era uma coisa normal. Aproveitei o momento para fazer uma homenagem às prostitutas”.