A mina de Morro Velho, em Nova Lima, será tombada em breve pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). O órgão está em articulação com a prefeitura da cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte e com a AngloGold Ashanti, proprietária da mina que se tornou a primeira planta industrial de extração de ouro do país, em 1835. 
 
“A mineração foi fechada, trazendo problemas econômicos sérios e também um problema urbano. Você tem ali uma planta industrial e não sabe o que fazer com ela. E que é patrimônio cultural. Qual seria então o modelo de ocupação deste espaço?”, indaga Michele Arroyo, presidente do Iepha. 
 
Reconduzida ao cargo após quatro anos à frente do instituto, durante o governo de Fernando Pimentel, ela não tem dúvidas de que o complexo pode se tornar um ativo econômico e turístico para Nova Lima. Michele também comenta, nesta entrevista, os planos para o incremento do Circuito Cultural Praça da Liberdade, uma das meninas dos olhos do secretário de Cultura, Marcelo Matte.
 
A mudança no comando do Palácio da Liberdade modifica de alguma forma as proposições para o patrimônio cultural histórico e artístico de Minas Gerais, ainda que você tenha sido mantida à frente do Iepha? 
Algumas instituições públicas possuem uma missão e trabalhos específicos que precisam de continuidade, independentemente da gestão. Lógico que, numa mudança de governo, há uma reorientação, principalmente de ações especiais que vão ser pensadas e articuladas dentro de instituições do próprio governo e do próprio sistema estadual de cultura. A cada gestão, óbvio, você tem direcionamentos em relação a ações, programas e até projetos que vão ser prioritários no sentido de ter um começo, meio e fim. Neste momento, a gente está se reorganizando para dar continuidade a ações que são da rotina do órgão e a outras que são consideradas importantes numa nova gestão, além de aguardar novas articulações que nos serão dadas.
 
Quais seriam estas novas orientações no que diz respeito à patrimônio e ao próprio Iepha como instituição?
Temos um retorno positivo do governo no sentido da importância e da centralidade que o patrimônio cultural vai ter, tanto na gestão como um todo quanto num olhar mais específico em torno da cultura. Nosso grande desafio, colocado por essa gestão e pelo próprio secretário (de Cultura, Marcelo Matte), será construir uma articulação entre o sistema estadual de cultura, especialmente o Iepha, com a nova secretaria, que reunirá (a partir da aprovação da reforma administrativa) a cultura e o turismo. O que, para o Iepha, é extremamente positivo, porque todas as ações que são feitas pelo instituto têm como um dos principais eixos – além de a gente conhecer, reconhecer e conservar o patrimônio cultural – a promoção. Pode parecer que é só fazer propaganda do patrimônio, mas ela pode sim garantir a salvaguarda, trazendo não só reconhecimento como também a valorização daquela ação. O turismo pode alimentar a preservação, assim como o patrimônio pode alimentar os conteúdos de turismo. 
 
Podemos dizer que essa junção de secretarias amplia a atuação do Iepha?
É uma aproximação positiva, pois ampliou a nossa capacidade de articulação, dando não só mais visibilidade às ações de patrimônio cultural como também colocando o patrimônio num lugar importante para a vitalidade do turismo como alternativa econômica para o Estado. Praticamente todos os produtos ou circuitos turísticos estão relacionados ao patrimônio material, imaterial e natural. Esse tripé é o que nos garante um lugar de destaque, como um destino a ser procurado. O patrimônio só tem a ganhar, pois recebe recursos para restauração, para ações com comunidades, para que estas consigam preços justos e matérias-primas. Neste sentido, o turismo é bem-vindo desde que a gente consiga bons projetos, que sejam sustentáveis e respeitosos tanto com o turista e para a comunidade local quanto para quem é o detentor desse saber e desse patrimônio.
 
michele
 
 
Hoje a gente vive um momento de crise da mineração, não só pelas tragédias ocorridas em Mariana e Brumadinho, mas também por ser um recurso finito. Imagino que seja um caminho natural para as prefeituras buscarem o Iepha para terem uma outra fonte de recursos.
Com certeza. Tivemos momentos em que relacionamos o turismo com aquele boom de visitação, passando para uma lógica de turismo meio pasteurizada, com todo lugar que você ia parecendo ser igual, já que todo mundo buscava as mesmas coisas, não importando se estava num país ou outro. Agora estamos num momento muito interessante, de um turismo que busca o que é singular, dentro de um conjunto de expectativas, como ter uma paisagem natural exuberante, um núcleo urbano bonito, bem-cuidado e que conte uma história em que você também se alimente deste conhecimento, além da gastronomia, do artesanato e de uma arte contemporânea. Não vou dizer que o turismo possa ser o carro-chefe, pois não é só virar uma chave. A própria história de Minas Gerais traz a mineração em situações até contraditórias. Ao mesmo tempo que o Iepha preserva estruturas de mineração do século 18, a gente luta contra as estruturas atuais, não porque não concordamos, mas porque a nossa lógica de mineração no Brasil é pouco compromissada com uma recuperação ambiental que, no meu entendimento, deve-se iniciar no momento em que a mineração começa. Não podemos esgotar um tempo de mineração para depois se iniciar a recuperação ambiental. Você pode ter áreas de mineração com parques enormes com visitação e áreas de entretenimento. No Brasil, isso é pouco explorado.
 
“Não podemos esgotar um tempo de mineração para depois se iniciar a recuperação ambiental. Você pode ter áreas de mineração com parques enormes com visitação e áreas de entretenimento. No Brasil, isso é pouco explorado”
 
Esta preocupação com a recuperação ambiental também é da competência do Iepha?
O Iepha acompanha e monitora. Nós não aprovamos atividade minerária nova em nenhuma área tombada. Mas temos um passivo de minerações que foram interrompidas sem a recuperação ambiental, dentro de áreas tombadas. Além de minerações que estão em atividade, não dentro de área tombada, mas próximas de bens acautelados pelo Estado. 
 
São quantas áreas nesta situação?
Tem muitas. Não consigo nem numerar.
 
Acredito que elas sejam agora uma prioridade para o Iepha.
É uma preocupação grande porque o Iepha não tem atribuição nem competência técnica para fazer a análise do impacto ambiental mais amplo. Só conseguimos a análise vinculada aos ativos de patrimônio, seja ele material ou imaterial. Mas a gente sabe que a mineração ou outra atividade de impacto tem consequências a médio e longo prazos que precisam ser tratadas desde já. Não podemos esperar tudo acontecer. Vou dar um exemplo da Mina do Morro Velho, em Nova Lima, para mostrar o tamanho do desafio. Do ponto de vista do patrimônio cultural, é uma das mais importantes do Brasil, por se tratar da primeira planta industrial de extração de ouro no país, que tem todas as estruturas físicas preservadas no meio da cidade. A mineração foi fechada, trazendo problemas econômicos sérios e também um problema urbano. Você tem ali uma planta industrial e não sabe o que fazer com ela. E que é patrimônio cultural. Qual seria, então, o modelo de ocupação deste espaço? Um que preserve, que conte essa história, mas que possa se tornar um ativo econômico e turístico para Nova Lima. O Estado está fazendo o tombamento da mina e a gente está em articulação com a Anglo, que é dona da área, e com a prefeitura para traçar os moldes desta proteção. Não é só proteger, mas sim pensar como estes edifícios serão recuperados e qual será o modelo de ocupação deles. Tem que ser um espaço que será apropriado pela própria cidade, em função de sua história e como lugar de lazer, mas também como retorno econômico.
 
Uma das primeiras novidades anunciadas pelo secretário Marcelo Matte foi em relação ao Circuito Cultural da Praça da Liberdade, com a ideia de torná-lo mais acessível à população, inclusive fechando o trânsito na região. Já há um planejamento neste sentido?
Não é um conjunto arquitetônico só para a história de Belo Horizonte, mas que lhe ajuda a pensar o processo das cidades coloniais, passando pela inspiração europeia e pela capital planejada, na República, até chegar na arquitetura moderna, com o primeiro movimento de Niemeyer na Pampulha – depois com um segundo movimento nos anos 50 e, por fim, a Cidade Administrativa. E a Praça tem um pouquinho de tudo isso. Ela conta muito da ocupação de Belo Horizonte. Você tem o ecletismo dos primeiros edifícios, do Palácio com as secretarias; o art-decó, com o Palácio Episcopal e, no entorno, as residências da Comissão Construtora; a arquitetura moderna, como a Biblioteca e o edifício Niemeyer; além de uma arquitetura contemporânea, que é o Rainha da Sucata. É um lugar muito rico do ponto de vista de paisagem cultural, além do que os edifícios oferecem hoje, com atividades culturais, educativas e de lazer. É um conjunto importante que não pode se fechar para ele mesmo, para alguns grupos específicos que têm uma facilidade de acesso, seja físico ou em relação a conteúdos. Temos sempre que pensar em ampliar esse conteúdo, trazer essa diversidade cultural para a Praça como uma vitrine do próprio Estado.