Pablo Escobar é lembrado em seriados, livros e filmes. Longa-metragem cheio de atores famosos e inspirado na ocupação do Complexo do Alemão, pela polícia, é transformado em minissérie global – nesta quarta (13) vai ao ar o segundo capítulo de “Alemão”, com direito a imagens de arquivo da emissora exibidas em reportagens. “El Chapo”, o mais famoso traficante do mundo, foi preso, no México, sexta-feira passada, após negociar o financiamento de um filme sobre ele mesmo.
 
Não faltam assuntos para percebermos que a indústria cultural nunca esteve tão interessada no mundo do tráfico de drogas. Por que a história de pessoas subversivas, envolvidas no lucrativo e violento comércio ilegal, geram tanto interesse?
 
Para Mauricio Leão de Rezende, presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, existe um fetiche normal sobre a transgressão que é associada a uma estratégia de comunicação de apresentar esse universo de forma glamourosa.

“O tráfico de drogas é um lugar associado a ícones da sociedade contemporânea, como o poder, o prestígio, a fama e a riqueza. São fatores desejados por todas as pessoas. Há um lugar de reconhecimento, mesmo que às avessas”, afirma o psiquiatra.

Ingredientes
 

Autor do livro “Almanaque das Drogas” e do documentário “Ilegal”, o jornalista Tarso Araújo lembra que este não é um filão novo da indústria cultural. Basta lembrar quão antigos são os filmes de gângsteres, baseados especialmente no período de ação de Al Capone, contrabandista de bebidas numa época em que até o álcool era proibido nos Estados Unidos.

Segundo ele, são três ingredientes que fazem com que histórias de traficantes sejam sucesso. “O primeiro é a proibição. Traficantes lidam com algo proibido e isso gera curiosidade. Depois, os traficantes são apresentados como pessoas que ficaram ricas muito rapidamente. Algo que muita gente quer é dinheiro rápido e fácil”, explica o pesquisador.

“Em terceiro está a violência, que é algo que garante audiência com facilidade desde a Roma antiga”, completa Tarso, lembrando que a violência é um fator constante na televisão e, prova disso, é o enorme sucesso que o UFC tem feito no mundo esportivo.
 
Dicotomia
 
Mas Tarso Araújo enxerga peculiaridades nos sucessos recentes. Em “Breaking Bad”, por exemplo, o segredo estava em conciliar, no protagonista, as figuras do traficante e do pai de família.
 
A dicotomia bom/mau também está presente na persona Pablo Escobar, que inspirou a série “Narcos”. “Ele ganhou poder rapidamente e era muito violento em um trabalho proibido, sendo nota dez nos clichês das histórias de traficantes. Mas o Escobar era também muito amoroso com a família e muito preocupado com os mais pobres. Essa contradição é muito humana e enriquece a história dele”.
 
Se a figura de Pablo Escobar é tão fascinante, por que só agora há tantas produções sobre o criminoso colombiano? Tarso Araújo acredita que há uma série de fatores. Um deles é o tempo de maturação que foi necessário para que os americanos tivessem uma compreensão mais real sobre o processo da guerra contra as drogas.
 
Hoje boa parte da população sabe que as ações governamentais se mostraram ineficientes e é mais aberta ao debate sobre a legalização - tanto que, atualmente, é possível comprar maconha em vários Estados americanos.
 
O fato de Escobar ser um sul-americano também deve ser levado em conta. "Ele ficou desconhecido por algum tempo por ser latino. Mas o cinema americano foi mudando. Hoje os filmes estrangeiros são mais bem aceitos, os filmes independentes têm maior bilheteria", diz.
 
"Hollywood passou a contratar diretores sul-americanos, como Walter Salles e Fernando Meireles. Atualmente um dos maiores nomes do cinema americano é um mexicano, o (Alejandro Gonzalez) Iñárritu", completa Tarso, se referindo ao diretor de "Birdman", o grande vencedor do Oscar 2015, e de "O Regresso", que venceu o Globo de Ouro no último domingo.  
 
Arte & tráfico de drogas
 

Tráfico de drogas inspira grande número de produtos da indústria cultural

Pablo Escobar é tema de várias produções na TV e no cinema
Foto: Netflix/Divulgação

Pablo Escobar foi o traficante mais famoso do mundo e a indústria cultural tem faturado alto em torno de seu nome. Sucesso da internet, a série “Narcos”, dirigida por José Padilha para o Netflix, recebeu duas indicações ao Globo de Ouro (para Wagner Moura, como Melhor Ator em Seriado de Drama, e como Melhor Seriado de Drama). O “Rei da Cocaína” havia sido abordado ainda na série colombiana “Pablo Escobar: O Senhor do Tráfico” e no longa “Escobar: Paraíso perdido” (2014), com Benício del Toro. Em 2017 estreiam “Mena”, no qual Tom Cruise interpreta o piloto americano Barry Seal que trabalhou para seu cartel, e “El Patrón”, com o colombiano John Leguizamo. Javier Bardem e Penélope Cruz vão protagonizar a biografia “Escobar”, baseada nas memórias da jornalista Virginia Vallejo, a amante preferida do traficante.
 
A dor em telasA dor em telas
 

Foto: Divulgação
 
O artista colombiano Fernando Botero ficou famoso mundialmente por sua obra fofa e cheia de humor, mas também pintou a violência vivenciada em seu país. Vários dos quadros que ele pintou sobre as vítimas do tráfico de drogas foram apresentados no Museu de Artes e Ofícios em 2012. São trabalhos fortes, que evidenciam a dor sofrida especialmente por camponeses.
 

 

Entrevista para Sean PennEntrevista para Sean Penn
  Foto: Pedro Pardo/AFP
 
A notícia de que Joaquin Guzman, conhecido como “El Chapo”, deu uma entrevista ao ator americano Sean Penn, em outubro passado, foi manchete em vários jornais mexicanos. O encontro teria sido fundamental para que a polícia chegasse ao famoso traficante, que desejava ser estrela de um filme. Penn afirmou à imprensa que teve de usar telefones descartáveis, endereços de e-mail anônimos e mensagens criptografadas para falar com Guzman.
 
 

Impacto na TVImpacto na TV
Foto: Divulgação
 
Em 2014, “Breaking Bad” entrou para o livro “Guinness dos Recordes” como o seriado mais bem avaliado pela crítica. A imperdível série criada por Vince Gilligan e protagonizada por Bryan Cranston causou impacto na televisão americana ao mostrar um professor e pai de família se transformar completamente ao decidir se tornar produtor de metanfetamina. Craston venceu quatro vezes o Emmy de Melhor Ator em Série e o programa ganhou vários outros prêmios.
 
 

Tráfico de drogas inspira grande número de produtos da indústria culturalAbusado e vaidoso
 
Foto: Reprodução
 
Marcinho VP (1970-2003) foi um dos traficantes mais vaidosos do Brasil. Deu permissão para a gravação do documentário “Notícias de uma Guerra Particular”, de João Moreira Salles e Kátia Lund, e foi estrela do livro “Abusado”, de Caco Barcellos. Foi preso após permitir que o cineasta Spike Lee subisse o Dona Marta (no Rio) para gravação de videoclipe de Michael Jackson e dar entrevistas à imprensa. Foi solto, preso novamente, e assassinado no Complexo de Bangu.
 
 

 

 

‘Cidade de Deus’ e ‘Meu Nome não é Johnny’ são marcos nacionais
 
No cinema brasileiro, há alguns títulos que abordam a figura de traficantes. Provavelmente os mais famosos sejam “Cidade de Deus” – longa de 2002 que narra o desenvolvimento do tráfico de drogas na década de 70 na periferia do Rio de Janeiro, a partir do livro homônimo de Paulo Lins – e “Meu Nome Não É Johnny” – filme de 2008 que apresenta a história verídica de João Guilherme Estrella, um traficante de classe média que vai para a cadeia depois de viver uma rotina de intensas festas regadas a cocaína.