Tendo a palavra como ponto de partida do processo criativo, a companhia de dança Primeiro Ato estreia nesta sexta-feira (18), no Centro Cultural Banco do Brasil, a montagem “Três Luas”. “Não é um espetáculo para se entender. Não tem uma história linear. É, sim, para enaltecer os bons sentimentos, como o amor”, adverte a diretora e bailarina da companhia, Suely Machado, sobre a obra que nasceu a partir da versão musicada por Zeca Baleiro do livro “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão” (1974), de Hilda Hilst.
 
As músicas, interpretadas por nomes como Maria Bethânia, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Mônica Salmaso, entre outras cantoras não menos renomadas, foram lançadas no álbum “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé. De Ariana para Dionísio” (2007). “Quando Zeca me deu este CD, falei: ‘Quero isso para mim’. Ao que ele prontamente respondeu: ‘Você sabe que você manda’”, rememora Suely.
 
Sete anos após essa conversa, a diretora artística traz à cena um trabalho pautado pela delicadeza. “Não é uma dança sobre ela, Hilda Hilst. Fizemos um recorte sobre amor, lirismo e sobre tudo que ela escreveu relativo ao único homem que não conseguiu conquistar”, explica Suely. “Em uma época como a atual, na qual as pessoas querem declarar a guerra, acho importante dançarmos o amor, para ativar a memória afetiva”.
 
“Três Luas” traz dez bailarinos em cena, incluindo a própria Suely Machado. O palco, em formato de arena, vai colocar o público muito próximo à cena. “Vamos nos misturar com a plateia. É como se ela fizesse parte do todo”, pontua Suely, que após mais de 20 a 54 nos, volta ao tablado. “Nunca deixei de dançar. Só não ia para a cena. Agora fui motivada por falar desse amor na maturidade”.
 
Leveza
 
Para a criação dos movimentos, Suely contou com a ajuda dos bailarinos. Ela solicitou a cada integrante da companhia que escrevesse uma carta para uma pessoa ausente. “Eles deveriam dizer tudo o que gostariam de ter dito e não disseram, ou dizer algo que falaram e não gostariam de ter dito”, conta. Com esse material em mãos, ela desenhou a coreografia. “As movimentações são sutis. Braços e pernas estão a serviço do sentimento”, elucida.
 
Um trabalho que prioriza a leveza, tanto no balé, quanto no figurino, criado pelo bailarino do grupo, Pablo Ramon. “Terá muita transparência e vestidos finos, porque Hilda, em sua adolescência, pertenceu à aristocracia paulistana”, explica Suely.
 
Quanto à trilha sonora, além dos dez poemas musicados, conta com dois temas instrumentais criados por Zeca Baleiro, especialmente para a montagem. Sem cenário – apenas os bailarinos no palco – as novas composições têm a função de criar um clima de procura e espera, para aproximar ainda mais bailarinos e público.
 
“Três Luas” – CCBB (Praça da Liberdade, 450). Até 12/10. Sexta, sábado e segunda, às 20h, e domingo, 19h. R$ 10 e R$ 5 (meia)