Menos romântico e mais denso é o segundo disco solo do multi-instrumentista e produtor Leonardo Marques, também integrante da banda Transmissor. O álbum “Curvas, lados, linhas tortas, sujas e discretas”, lançado no fim do mês passado, traz uma safra de letras em tom nostálgico, mas que guardam uma carga de esperança nos versos.

“Esse é um trabalho voltado para a minha trilha sonora de vida. Ele retrata uma mudança”, revela Leonardo, referindo-se ao retorno a Belo Horizonte após morar alguns anos em Casa Branca, distrito de Brumadinho. “Saí de um lugar bucólico e voltei para a confusão da cidade. Isso está presente nas letras”.

Conhecido pela sutileza vocal nas canções da banda Transmissor, Leonardo quase sussurra nas faixas do novo disco. “A interpretação das canções contrasta com o peso dos instrumentos”, comenta o rapaz.

Assim com no primeiro trabalho, o músico assumiu a gravação de quase todos os instrumentos: piano, violão, banjo, guitarra, baixo, mellotron, optigan, chamberlin, casiotone, tonebank, guitarra barítona e percussão. Somente a bateria ficou por conta de Pedro Hamdan. “A bateria e o baixo foram gravados no formato analógico para dar a sonoridade mais pesada que eu queria”.

Memória

Enxuto, o disco traz apenas nove canções, que vão desde baladas a faixas mais nebulosas e com ritmo mais lento. O teclado é o grande responsável pelas faixas mais solares do álbum, como a inspiradora “Ele só sai a pé”.

“Gosto muito da leveza que o teclado consegue colocar na música. Me remete às músicas dos anos 1960 e 1970 que era acostumado a ouvir”, justifica.

A única faixa não assinada por Leonardo é uma regravação da famosa “Um girassol da cor de seu cabelo” (Lô Borges e Márcio Borges, 1972). Com um novo arranjo de bateria e baixo e muitas brincadeiras com mellotron (teclado eletromecânico), a versão do músico para a canção do Clube da Esquina não foge da versão original, apenas lhe confere um “ar contemporâneo”.

“Comecei a tocar essa música em alguns shows e percebi que tinha a ver com o que faço. Acabou entrando no disco”.

Gravado no estúdio do artista, o Ilha do Corvo, e também no Bunker, em Nova Lima, “Curvas, lados, linhas tortas, sujas e discretas” chegou ao mercado fonográfico pelo selo La Femme Qui Roule (“a mulher que rola”, em francês). À frente do selo estão o belga Yannick Falisse e o próprio Leonardo Marques.
“A ideia do selo é promover um intercâmbio cultural”, garante.

Por falar em intercâmbio, o moço já está com shows marcados em Londres, Paris e Amsterdã no fim de abril. As apresentações são fruto de conversas do músico com representantes de um selo fonográfico europeu. “É um início para estabelecer uma relação com a europa. Um selo japonês também me procurou”.