“A poesia me significa. Faz com que eu seja eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas, ninguém”, reflete Ricardo Aleixo sobre as nuances de seu fazer artístico. De fato, são muitos os sujeitos, corpos e ambientes pelos quais perpassa a escrita do poeta e multi-artista belo-horizontino, considerado uma das grandes vozes líricas do Brasil na atualidade. Com uma trajetória que já soma mais de 25 anos, Aleixo revisita sua obra em “Pesado Demais para a Ventania” (Todavia), antologia poética lançada em abril.

Dividido em seis grandes seções, o livro traz alguns dos momentos mais representativos da profícua caminhada de Aleixo, cuja força criativa também se desdobra na performance, nas artes visuais e na música. Os poemas costuram temas como o amor, os relacionamentos, o racismo, a negritude, a ancestralidade, a cidade, a literatura e a própria poesia. 

“Creio que a relação prazerosa com a palavra, mesmo nos textos mais ‘barra pesada’, é o que se dá a ver em todos os poemas”, afirma Aleixo, que contou com o auxílio de Leandro Sarmatz, poeta e editor da Todavia, na seleção do material para o livro. “Poesia é jogo, um jogo muito sério, ‘jocosério’, como dizia o mestre Affonso Ávila”, completa o autor, lembrando que o título do livro vem de um verso do poema “Inferno”, publicado em “Trívio” (2011).

Hoje aos 57 anos, Aleixo iniciou sua escrita em 1977, “meio assim, do nada”. “Comecei a escrever, muito provavelmente, porque gostava muito de ler. Já não me lembro por qual motivo me senti levado a dedicar a minha vida de adolescente, absolutamente sem graça, a essa estranha forma de lidar com o mundo, chamada poesia”, conta. 

Lugares

Aleixo ressalta a importância de sua morada, o bairro Campo Alegre, Região Norte de Belo Horizonte, dentro da perspectiva poética. “É um bairro que transformei, mais que numa cidade, num lugar único, a partir de onde eu vejo a vida e o mundo”, sublinha. “Vim para cá em 1969, com nove anos. Foi aqui, no terreiro de casa, que Íris, minha mãe, enterrou o meu umbigo. Fiz de BH uma outra coisa, um lugar distante e próximo demais ao mesmo tempo, que me inspira na mesma medida em que sou tocado por qualquer lugar do mundo por onde circule gente viva”.

Para o mineiro, o passeio entre diferentes linguagens artísticas é natural. “É e não é tudo a mesma coisa. E, veja: a questão comigo é menos ‘passear’ do que efetivamente me perder entre as linguagens”, afirma, citando autores com quem dialoga. “São contemporâneos de um passado muito remoto, como Homero, de um passado mais recente, como Amiri Baraka, ou jovens de agora, como Adriane Garcia ou Reuben da Cunha”, diz.

Assim, é na complexidade do ser e estar que Aleixo assume o que chama de “lugar de falha”. “Entendo e respeito o conceito de ‘lugar de fala’, fundamental em contextos como o brasileiro, de democracia rala ou nenhuma”, pondera. “Mas gosto mesmo, como poeta, é de pensar a linguagem como um ‘lugar de falha’. Ou seja, um ‘espaçotempo’ aberto à experimentação e, por isso mesmo, ao erro. O poeta, afinal, é um fingidor”, pontua, refutando a ideia de carreira. “Poesia, para mim, é um ponto de vista, não um meio de vida”.

Corpo negro

Um dos fundadores do Festival de Arte Negra (FAN), Ricardo Aleixo é certeiro ao falar da condição de “poeta negro” no Brasil. “Não sei o que é ser um ‘poeta negro’. Sou negro. E sou poeta. Sou poeta. E sou negro”, enfatiza. “O racismo me oferece problemas, que eu tento transformar em temas. E eu ofereço ao contexto racista em que vivemos um sortimento cada vez mais diversificado de problemas, como, por exemplo, a obrigação de ter que lidar com o que faço sem me enquadrar em nichos específicos. Por enquanto, estamos quites”, completa.

E o que é, então, o corpo – poético e político – colocado reiteradas vezes como protagonista da obra do artista belo-horizontino? “É o corpo de um homem negro, a caminho da velhice, que tenta dizer, a seu modo, o que só cabe ao corpo, qualquer corpo, dizer”, pontua. “É a minha mídia primária, para citar o teórico da comunicação Harry Pross. E é, como gosto de pensar, uma ‘hipótese de lugar’, um quilombo móvel”, ressalta.

Aleixo sublinha, ainda, a relação simbiótica entre a política e o fazer artístico, tão evidente em sua poesia, que tem no racismo um assunto recorrente. “Ética e estética, já nos ensinou o filósofo Ludwig Wittgenstein, são indissociáveis”, afirma. “Todo texto é político, porque implica um uso desse bem comum, público, coletivo que é a palavra”, finaliza.