Quando Taís Araújo sofreu ataques racistas em sua página do Facebook, o Brasil inteiro ficou impressionado com a barbárie de quem se aproveita do anonimato virtual para escrever o impronunciável. Mas o episódio envolvendo a atriz está longe de ser caso isolado. Há milhões de negros e pardos brasileiros que sofrem com o racismo nos mais diferentes níveis, na internet e na vida real, de forma velada ou escancarada.

Por isso, não são poucos os que se envolvem em projetos e ações que visam o combate ao preconceito e à discriminação. Boa parte desses trabalha o empoderamento por meio da valorização da beleza negra. Caso do projeto “Nós”, desenvolvido por Jéssica Pinheiro e Stephaniny Ratto. Resultado de um trabalho de conclusão de curso de
Publicidade da UNA, consiste em incentivar as donas de cabelos cacheados e crespos a curtir sua genética.

São três frentes: intervenção urbana, com a instalação de cartazes com perguntas referentes a estereótipos, postagens em redes sociais e visitas a escolas para mostrar, aos pequenos, a beleza das madeixas deles.

Já fomos zoadas na escola por conta do cabelo e acabamos, à época, fazendo a opção pelo alisamento. O padrão europeu reina no Brasil e tudo que vem do negro é inferiorizado”, diz Jéssica. O projeto nas escolas, com palestras para alunos e professores, não leva só palavras. As duas moças de 22 anos se sentam no chão e pedem para que as crianças toquem seus cabelos. “No final, várias meninas falam: quero deixar meu cabelo assim”.

Premiação

Outra iniciativa bacana é o Prêmio Zumbi de Cultura, que chega à sexta edição nesta terça-feira, às 19h30, no Sesc Palladium. É quando negros são premiados por fazerem trabalhos de destaque em diferentes categorias (como Dança, Teatro, Música, Educação, Ativismo e outros). Este ano foi incluído, ainda, o reconhecimento na categoria Protagonismo Juvenil.

A iniciativa é da Companhia Baobá Minas, que tem foco na cultura, ritmos, poesia e dança afro-brasileiros. “É importante homenagear as pessoas da cidade. Sabemos que há vários mestres da cultura popular, especialmente dos reinados, que estão no fazer cultural há muitos anos e poucos os conhecem”, afirma Júnia Bertolino, fundadora da Baobá. “Temos ainda muitos artistas que vivem a disputa das leis de incentivo, que são reféns da busca de patrocínio e precisam ter o talento reconhecido”.
Este ano, haverá, ainda, o lançamento da revista “Herdeiros de Zumbi”, com fotos e informações sobre todos os vencedores do prêmio entre 2010 e 2014. Vale lembrar que cada vencedor leva para casa uma escultura em bronze desenvolvida pelo artista plástico Jorge dos Anjos.

“O movimento negro teve papel importante para as nossas conquistas. Mas hoje são vários movimentos, nas mais diferentes áreas. Nas artes, na educação, na valorização da beleza. Temos que reconhecê-los”, completa Júnia.
 

Por conta da Lei 10.639/03, todas as escolas são obrigadas a ensinar os alunos sobre história e cultura da população afro-brasileira. O importante é que os conceitos sejam trabalhados de forma interdisciplinar, ou seja,
por todos professores





Valorizar o cabelo crespo vai muito além da moda

Quando o assunto é valorização da beleza negra, impossível não pensar em Betina Borges, referência no tratamento de cabelos crespos há 30 anos. Localizado na rua Pouso Alegre, na Floresta, seu salão Beleza Negra é procurado por mulheres de toda região metropolitana, interessadas em ter um cabelo bonito – seja ele black, trançado, alisado, curtinho, colorido...

Antes de se tornar cabeleireira, Betina era manicure em um salão do bairro Sion. Enquanto mulheres buscavam tratamento para cabelos crespos – algo ainda muito desconhecido na época –, ela causava sensação por onde passava com seu cabelo trançado com fios de lã.

A partir de um curso no Senac, começou a investir na especialização e se tornou empreendedora. “Em 1995, ganhei uma bolsa para estudar na Carolina do Norte (EUA). Voltei formada em cosmetologia em uma universidade voltada apenas para pesquisas sobre cabelos crespos”.
O conhecimento foi fundamental para que Betina trouxesse para a capital mineira uma técnica de avaliação de fios de cabelo. “Somente depois que a cabeleireira conhece bem as características do fio é que pode definir as estratégias de tratamento e corte, com menos química possível”, diz Betina, que hoje emprega 12 pessoas e conta com mais cinco free-lancers.

“A indústria brasileira precisa aprender que não é preciso ter tanta química nos produtos. Nos Estados Unidos, há uma grande oferta de produtos para cabelos crespos que são bem menos agressivos”, diz Betina.

Segundo ela, é importante desmistificar assuntos quando o assunto é o cabelo da mulher negra. É possível lavar com frequência, sim, desde que seja pela manhã (e possa secar naturalmente ao longo do dia), e pode ser desembaraçado com frequência. Condicionador no couro cabelo, nem pensar. “O importante é que a cabeleireira dê as recomendações certas para cada pessoa. O acompanhamento tem que ser personalizado”.

Várias frentes

Boa parte dos projetos ligados à valorização da mulher negra passa pelas mãos de Dandara Elias, dona da grife Todo Black É Power. Como produtora, ela trabalhou na versão mineira do projeto Negras do Brasil, que realiza cursos de automaquiagem para pele negra, via Uai Shopping. Também foi produtora executiva do projeto bienal “Miss Black Power”, realizado ano passado no Rio de Janeiro. “A vencedora foi uma mulher de 1,56m e manequim 40. A nossa intenção não é valorizar o padrão”, explica.

Dandara também atua no Encrespa Geral, evento que visa o empoderamento da mulher pela aceitação da estética negra e que terá nova edição no dia 22, no Centro Cultural Padre Eustáquio. “Ao mudar o cabelo, essas mulheres mudam suas vidas. Compreendem que são donas de si”.

Crianças roubam a cena na internet ao falar sobre o empoderamento
 

Na internet, não faltam personalidades marcantes na luta contra o racismo. Mas quem tem feito a diferença de verdade são as crianças. Como Gustavo Gomes Santos, de 11 anos, que ficou famoso ao dar uma aula de autoconhecimento em uma entrevista para uma emissora de TV. O vídeo teve mais de 414 mil visualizações. A desenvoltura do garoto foi tanta que a “Folha de S. Paulo” o convidou para ser colunista da “Folhinha” por um mês. Tem ainda a Carolina Monteiro, uma garotinha de 8 anos de Divinópolis que faz vídeos sobre o orgulho dos cabelos crespos e fala contra o racismo.


Polícia civil quer saber quem são as pessoas por trás dos perfis falsos
 
A Polícia Civil do Rio de Janeiro irá pedir à Justiça a quebra do sigilo de cerca de 30 perfis do Facebook, com o objetivo de identificar os autores das ofensas racistas postadas na página da rede social da atriz Taís Araújo. Os ataques aconteceram em um curto espaço de tempo na noite do dia 31 de outubro, por pessoas escondidas por trás de perfis falsos. A atriz prestou depoimento na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI), que instaurou inquérito para investigar o caso. Quem for identificado será indiciado por injúria racial e a punição pode chegar a quatro anos de prisão – sendo que o uso da internet para difundir a ofensa implica em um agravante.

Militante destaca importância de se procurar a justiça

Não basta lutar pelo fim do racismo e pela valorização da beleza negra. Frente a uma injúria racial, a vítima tem que buscar a polícia e a Justiça. Como fez o tradutor Thiago Ribeiro, que se sentiu ofendido com um tuíte do comediante Danilo Gentili postado em 2012. Militante, Thiago fez campanhas contra o programa “Agora É Tarde”, na época exibido na Band, por estar indignado com algumas piadas e com a maneira com que o apresentador tratava uma funcionária negra. Danilo postou, copiando a conta do Twitter do tradutor: “Quantas bananas você quer para deixar para lá?”. Ribeiro entrou na Justiça contra Danilo, mas perdeu. “A impunidade faz isso. A pessoa tem um pensamento racista e vê que não acontece nada para suas postagens e se sente livre para fazer isso sempre”.