Foram 204 capítulos até o Brasil descobrir, surpreso, quem matou Odete Roitman. Se a internet existisse há 30 anos, essa frase certamente estaria entre os trending topics, já que os brasileiros praticamente pararam diante da TV para ver “Vale Tudo”, novela das oito assinada por Gilberto Braga que se tornou um marco da teledramaturgia nacional.
 
Assim que a voz de Gal Costa rasgou a trilha sonora da vinheta de abertura gritando “Brasil! Mostre a sua cara!”, no dia 16 de maio de 1988, ficou claro para os espectadores que não se tratava simplesmente de outra novela “cheia de crueldade”, como muitos definem a atração do horário nobre da Rede Globo. Maldades, claro, não faltaram, mas envolvidas em elementos bem realistas.
 
“Foi uma novela muito antenada com o espírito daquele tempo, quando se falava na lei de Gerson, em obter vantagem em tudo”, recorda Thiago Stivaletti, jornalista especializado em TV. Ele observa que Braga construiu a novela a partir de uma sociedade em que ricos e políticos corruptos se manterão no poder, enquanto os pobres e honestos nunca deixarão a condição de explorados.
 
“Braga fez desse material um folhetim, em que há uma divisão social imensa, baseada na corrupção, algo que, infelizmente, ficou mais atual, após o escândalo da Lava Jato”, registra Stivaletti. A personagem Odete Roitman, uma empresária vivida por Beatriz Segall, uma das grandes vilãs da história das telenovelas, era o maior exemplo destes desvios de caráter na elite brasileira- mas não só.
 
Maldade pura
A trama dirigida por Dênis Carvalho começa com uma traição familiar já no primeiro capítulo: Raquel (Regina Duarte) descobre que sua filha Maria de Fátima (Glória Pires) vendeu a casa e sumiu com todo o dinheiro. Havia ainda o braço direito de Odete, Mauro Aurélio (Reginaldo Faria), um executivo picareta que foge com milhões de dólares, dando uma banana para a população.
 
A morte de Odete foi o clímax, embora não tenha acontecido no capítulo final. “Na memória afetiva das pessoas, o mistério parece ter demorado mais tempo, mas aconteceu na reta final, quando faltavam duas semanas para a novela acabar. Na época, como só tinha TV aberta, os últimos capítulos chegaram a dar quase 100% de audiência”, recorda Stivaletti.
 
Beatriz Segall nunca deixou de ser chamada de Odete Roitman nas ruas
 
A novela foi tão marcante que, volta e meia, o jornalista ainda ouve frases extraídas da história de Braga, especialmente do núcleo de Odete. Nos momentos em que ela e seus familiares estão em volta da mesa saíam expressões que refletiam o pensamento da elite. “Como dizer que, se o pobre trabalhasse, iria progredir na vida. No caso dos ricos, chegaram a essa condição por mérito”, lembra.
 
Stivaletti afirma que a trama não poupava os pobres, sempre explorados pelos mais abastados. “A elite não só desprezava o pobre como também o explorava. Odete, no café da manhã, dizia não querer saber de nada do Nordeste, mas a tarde estava fazendo uma negociata com uma prefeitura daquela região, acertando quanto embolsaria no projeto de turismo”, exemplifica.
 
VALE1Cássio Gabus Mendes e Lídia Brondi passaram a namorar na vida real após a novela
 
Para Danton Mello, gravações da novela eram uma diversão
 
O ator mineiro Danton Mello era um garoto quando participou de “Vale Tudo”, como filho do executivo corrupto vivido por Reginaldo Faria. “Estava no avião, ao lado de Reginaldo, quando ele deu aquela banana!”, lembra Mello, citando a famosa cena de encerramento da novela. “Trinta anos se passaram e tudo continua a mesma merda. A gente ainda espera que um dia algumas coisa possa mudar”, salienta o ator, atualmente no elenco da novela “Deus Salve o Rei”, da Globo, e em cartaz nos cinemas com “Antes que Eu Me Esqueça”, de Tiago Arakilian.
 
Ele recorda que não tinha muita consciência sobre os fortes temas que a novela abordava. “Fazia tudo como uma brincadeira, e acabei levando um pouco isso para minha carreira. Cheguei a sofrer com a ideia de não ter estudado, não ter lido sobre o método Stanislavski”, afirma. Hoje o ator está satisfeito “com seu jeito de aprender”, baseado na vivência com os colegas de profissão. “Cresci sendo filho de Antonio Fagundes, trabalhando com Cássia Kiss... Eles foram professores. Via a interpretação deles, o profissionalismo deles. Sou muito grato”. 
 
Mello só teve ideia do impacto de “Vale Tudo” mais recentemente, quando ela reprisada no Viva, canal de TV por assinatura. “Foi um novo sucesso e me senti muito feliz por ter participado disso. É muito maluco me ver tão pequenino”, registra o ator, que completou ontem 43 anos.

Melodramas
A questão social e político pode ter saído da realidade brasileira, mas a disputa entre mãe e filha, interpretadas por Regina Duarte e Glória Pires, foi inspirada nos melodramas de Hollywood. O jornalista Thiago Stivaletti comenta que autores como Gilberto Braga, Sílvio de Abreu e João Emanuel Carneiro eram grandes cinéfilos, homenageando seus filmes preferidos nas tramas novelescas.
 
"No caso de 'Vale Tudo', a fonte é “Alma em Suplício” (1945), de Michael Curtiz, que deu a Joan Crawford o Oscar de melhor atriz. “Nesta matriz de melodrama, Braga jogou uma coisa mais brasileira, com um contexto nosso”, pontua o jornalista. 
 
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