“Valentina” é o primeiro longa-metragem de ficção mineiro protagonizado por uma mulher transexual. Assinado pelo diretor Cássio Pereira dos Santos, o filme vem recebendo vários prêmios em festivais, como o Mix Brasil, voltado para produções com a temática LGBTQI+, em que ganhou o troféu principal, roteiro e interpretação.

Além do tema, sobre uma jovem trans que passa a sofrer preconceito na escola após se mudar para  o interior de Minas, “Valentina” também tem chamado a atenção por sua linguagem. “Buscamos um aspecto de cotidiano, quase documental para a maioria das cenas, de forma que levasse leveza para o filme”, salienta Santos.

Dois elementos importantes de “Valentina” já estavam presentes no curta “Marina Não Vai à Praia”, lançado em 2015 e igualmente premiado. Um deles é o fato de  ter mais uma vez uma protagonista jovem. O outro é trabalhar  a questão da inclusão social – em “Marina”, era o drama de uma garota com Síndrome de Down.

“Trabalho muito com o universo do interior de Minas, que é onde eu nasci e cresci. Tem a ver com a memória afetiva. Também procuro usar nos filmes pessoas que são do interior, misturando-as com atores profissionais. A ideia é levar para a tela essa atmosfera”, observa o cineasta, nascido em Patos de Minas, no Triângulo Mineiro.

Hoje ele é mora em Uberlândia, um dos cenários  de “Valentina”. Parte do elenco também foi composto por pessoas da região. A protagonista, Thiessa Woinbackk, porém, é de Catalão, em Goiás, cidade próxima de Uberlândia. “Ela é uma youtuber, com muitos seguidores, e fez  o seu primeiro trabalho como atriz”, registra.

O fato de Thiessa ser uma transexual na vida real foi fundamental para a narrativa, de acordo com Santos. “Publicamos um anúncio, pedindo para mulheres trans enviarem uma determinada cena. Foi neste processo que chegamos a Thiessa, que veio para Uberlândia fazer um teste e imediatamente vimos que tinha potencial”.

A equipe técnica e o restante do elenco, aliás, foram compostos primordialmente por integrantes da comunidade LGBTQI+. “Traz mais autenticidade para o filme. Eu também sou LGBT, minha irmã, que é produtora do filme, também. Com a personagem central é trans, buscamos pessoas trans, para ter essa vivência desde o início”.

O roteiro começou a ser pensado logo após o lançamento de “Marina Não Vai à Praia”, quando Santos decidiu que já estava na hora de estrear em longas. “Começamos a pensar em temas e histórias e cheguei a um dado revoltante: boa parte dos jovens trans não conseguiam ficar na escola por ser um ambiente muito hostil”, assinala.

Esta hostilidade, completa Santos, tem alunos como provocadores, mas principalmente professores e diretores. “O que acaba gerando uma evasão escolar muito grande. É exatamente neste ponto que começa o processo de exclusão das pessoas. Se não consegue terminar o ensino médio, não faz a faculdade e fica mais difícil entrar no mercado de trabalho”.

Para o cineasta, o filme tem um grande papel social. Com a exibição, ele acredita que será possível gerar mais discussão sobre o tema. “Quem sabe até passar em escolas. Quanto maior a visibilidade e o diálogo, melhor para a diminuição do preconceito”, destaca.