Como a cultura pop nos diz quem somos? Foi com essa pergunta na cabeça que o professor e jornalista Thiago Pereira Alberto iniciou a pesquisa sobre o universo daquelas músicas, filmes e séries que parecem nos acompanhar por toda a vida, como sinônimos de nossos sentimentos e posições sobre as questões que nos afetam no dia a dia.
Thiago Pereira

Thiago Pereira Alberto é doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense com estágio doutoral na Universidade do Porto, em Portugal. Atualmente é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e baixista da banda Pelos

 
“Minha questão era perceber como os elementos que perfazem a cultura pop atravessam a gente subjetivamente”, registra Alberto, que levou essa indagação para a sua dissertação de mestrado, defendida em 2013, agora transformada no recém-lançado livro “Vida Pop; Reconhecimentos e representações da Cultura Pop em ficções de Nick Hornby” (Appris).
 
O nome do escritor inglês Nick Hornby surge na pesquisa por ser ele uma espécie de embaixador da cultura pop na literatura, transformando os seus personagens em verdadeiros símbolos da forma como “olhamos o mundo por meio de produtos da cultura midiática que estão espalhados por aí”, de acordo com o autor
 
Ele usa como ponto de partida dois livros de Hornby, que fazem um interessante diálogo sobre esse sujeito pop em diferentes estágios. Num primeiro momento, há Rob Gordon, o protagonista de “Alta Fidelidade” (1995), que tem em sua loja de vinis o refúgio para toda a sorte de idealizações, sacando discos como alívio existencial.
 
“O livro é quase laudatório em torno dessa percepção de pessoas pautadas pelo cinema, pela música e pelas séries. Um dos axiomas da publicação é que sou triste e, por isso, ouço música pop ou a música pop é o que me faz ficar triste. ‘Alta Fidelidade’ é a celebração dessa vida em estado de graça”, observa.
 
O segundo livro é “Juliet Nua e Crua” (2011), que mostra esse sujeito com certa desconfiança, lançando um ponto de interrogação sobre essa relação com a cultura pop. “Ele faz uma interrogação, como se Hornby reavaliasse, anos depois, que o pop não dá conta de tudo, não”, destaca Alberto
 
As principais mudanças se dão nos protagonistas, na visão deles com a sociedade ao seu redor, além do fator temporal. “Gordon é o sujeito preso num certo idealismo juvenil que parece perpétuo. Ele é um Peter Pan, que não quer crescer. Duncan, de ‘Juliet’, por sua vez, mostra que o pop dá conta de algumas coisas e de outras, não”.
Autor faz uma exploração inicial sobre a pop art para entender primeiramente os usos do pop
Para Alberto, os dois livros realizam um arco sobre o sujeito pop, mostrando suas virtudes e deficiências. Quem questiona esse lugar são as mulheres. “Os homens são imaturos. As mulheres já são mais bem resolvidas. Os personagens, que são brancos, numa idade entre 30 e 40 anos, têm no pop algo ilusório e dependente”, distingue.
 
Lançado após a escrita da dissertação de Pereira, “Funny Glow” formaria uma trilogia sobre a cultura pop na obra de Hornby, retrocedendo ao cenário musical da Inglaterra dos anos 60. “É como se o escritor tivesse ido lá atrás para buscar essa fonte seminal da cultura pop”.
 
N/A

Duas obras do pouco estudado escritor britânico Nick Hornby servem como um inspirador campo para se analisar a cultura pop

 
“Ele mostra a explosão da cultura pop britânica, enquanto ‘Alta Fidelidade’ radicaliza ao por o sujeito pop enfiado nesse universo, em que, como diria Guilherme Arantes, os discos são seu mundo e nada mais. Já o Duncan traz um Rob nos tempos da internet, elitista e se achando o bom, glorificando um artista que ninguém conhece num fórum virtual”, diferencia.