SÃO PAULO – No alto da avenida Paulista, entre obras de artistas de 12 países, disputa a atenção a videoinstalação “EscadaAdentro”, assinada pelos mineiros Thembi Rosa e Lucas Sander.

Além dos dois, apenas um outro trabalho brasileiro – no caso, do paulistano Eric Marke – foi selecionado para compor a 15ª edição do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, o File, que, neste ano, leva 28 instalações à Galeria de Arte do Sesi-SP, a três espaços do Centro Cultural Fiesp e às calçadas das estações de metrô. Detalhe: todas as atrações são gratuitas.

“EscadaAdentro”

Criada a partir de um sistema de mapping, “Escada Adentro” é um trabalho impecável de ilusão de ótica – o observador é levado a assistir a bailarina Thembi Rosa subir e descer uma escada – em movimentos aleatórios e desconexos –, como se estivesse deitada sobre os degraus – na verdade, não está.
Em 2012, o vídeo foi exibido pela primeira vez na mostra “Parâmetros em Movimento”, no Palácio das Artes. Em São Paulo, todo mapeamento precisou ser refeito – embora o vídeo utilizado fosse o mesmo, a escada foi criada especialmente para a instalação da dupla.

A preocupação era pela proporção do corpo, que deveria ser mantida em relação à escada. Se antes ela parecia estar ‘presa’, agora foi bem diferente, porque a escada não tem bordas, e, assim, a percepção da fluidez do movimentos da Thembi fica ainda maior”, explica Sander.

Visibilidade

É sabido que exibir um trabalho autoral de arte em uma das principais cidades do país é privilégio para poucos. Não é à toa, portanto, que Thembi e Lucas celebram a participação no festival. Ainda assim, os dois mantêm os pés no chão quando o assunto é dar passos largos.

“Claro que estar aqui nos dá uma supervisibilidade em todo o mundo, mas isso não basta quando se vive em um país onde a política cultural não é bem resolvida”, lamenta Thembi.

“Enquanto os japoneses, por exemplo, têm o suporte do Governo para desenvolver seu trabalho, por aqui não sabemos como vai ser o dia de amanhã”, compara ela para completar em seguida: “O artista brasileiro está sempre tentando potencializar alguma coisa, mas o que precisamos é ter assegurada a continuidade de um trabalho. Enquanto isso não acontecer, viveremos de resistência e persistência”. Apesar do caminho tortuoso, a dupla já tem na manga projetos pós-File. “Possivelmente, vamos fazer uma nova versão do ‘Escada’ no Sesc Ipiranga, em outubro. Será em uma escada em espiral”, conta ela.

Já Sander lança, este mês, o curta “Caixa de Pandora” no site vimeo.com/tauma. O trabalho, que participou de festivais de videoarte na Europa e Estados Unidos, poderá ser visto gratuitamente, em breve. É só aguardar.

* A repórter viajou a convite do File